terça-feira, 26 de agosto de 2008

undivided

Se pudesses voltar atrás mudavas alguma coisa na tua vida?

Se me tivessem perguntado isso há uns anos atrás, eu teria respondido logo sem pensar duas vezes, SIM. Sim, eu mudava umas coisinhas no meu passado. Mudaria algumas atitudes minhas, algumas opiniões formadas, algumas decisões tomadas. Depois ficava a imaginar como seria a minha vida no presente com as mudanças que faria. Ainda teria o namorado antigo, as amigas de infância com quem perdi contacto; imaginava-me muito feliz. Depois cresci e, obviamente, mudei de ideia. Já não mudaria nada na minha vida se pudesse fazer o ponteiro do relógio rodar para trás uns anos. Imagina que eu mudava. Eu mudava as atitudes, as opiniões e as decisões. Imagina que eu mudava. Teria, de certeza absoluta, o namorado e as amigas? Não teria provavelmente. E todo aquele meu futuro mudaria a partir daquele momento. Tudo o que eu conhecia antes da excelente ideia de voltar atrás no tempo, tudo mudaria. Deixava de ter as novas amizades que fiz, os outros namorados que vieram, as coisas fantásticas que vivi com todos eles. Imagina que eu voltava atrás e tinha um futuro pela frente sem nenhum deles; seria eu feliz? Comecei a pensar que não devemos mudar as coisas que fizemos – até porque nem conseguimos voltar atrás, mas faz de conta. Faz de conta. Se pudéssemos, não devíamos. Porque todo o caminho que nós traçamos por ali fora, é o caminho que nós devemos tomar. Nós aprendemos com cada erro, cada indecisão, cada dilema, cada tristeza, cada alegria, cada amigo. Nós, todos os dias, seguimos o caminho que queremos e abrimos novos caminhos por seguir. Quando dizemos “se eu pudesse voltar atrás…” quer dizer que aprendemos e, que para a próxima, já fazemos da maneira correcta. E, é por isso, que não devíamos voltar atrás. Devíamos ficar contentes por termos aprendido mais uma coisa nesta vida, neste nosso caminho por seguir. Não acham, vocês, um máximo não podermos mudar nada no passado? Isso obriga-nos a mudar no futuro e a evoluir com as novas mudanças. E se voltarmos a errar nada de dizer “ai se eu pudesse voltar atrás”, nada disso! A solução está no futuro. E em relação ao futuro? Preferem olhar ou arriscar?

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

seis anos e uma vida

Hoje é a véspera do meu casamento. Amanhã, dia dois de Setembro de 2009, vou-me casar com o homem que me faz feliz há seis anos. Estamos os dois deitados na nossa cama da nossa casa. Ele há pouco perguntou-me "Não acreditas naquele mito de que os noivos não devem passar a noite antes do grande dia juntos, pois não?" e eu respondi-lhe que não. Não acredito e aliás nunca passaria mais uma noite sem ele. Agora ele já está a dormir, abraçado a mim, como faz todas as noites. Desejou-me boa noite e deu-me um beijo. Amanhã espera-nos, a mim e a ele, um grande dia. Já pûs o despertador para tocar às oito horas da manhã e agora vou tentar dormir.
Às oito horas da manhã, o despertador toca sem falhas. Desligo-o e viro-me para o lado da cama onde ele dorme sempre. Encontro-a vazia, ele não está aqui. "Estranho", penso, "Ele já se levantou!". Sendo assim, saio da cama e vou até ao quarto de banho que é mesmo aqui ao lado. Visto-me com a primeira peça de roupa que vejo à frente e prendo o cabelo num rabo-de-cavalo. Desco as escadas do meu duplex e entro na cozinha. Preparo o meu rápido pequeno-almoço e, assim que vou ao frigorífico, reparo que as minhas fotografias com ele já não estão coladas na porta. "Devem ter caído, não sei", penso. Depois de ter engolido a torrada e o leite, ligo à minha mãe. Do outro lado da linha, ouço-a a pedir-me para esperar por ela cá em casa. E espero. Assim que toca à campainha, dez minutos depois do telefonema, eu abro-lhe a porta. "Onde é que vamos, afinal?", pergunta-me. "Ao cabeleireiro, como combinado, mãe. Tenho que estar perfeita para logo à tarde, no casamento" respondo-lhe e penso que a minha mãe já se anda a esquecer de muitas coisas, o que não é normal. Depois disso, pergunta-me com cara de interrogação "Que casamento, filha?". Ora, não acho normal tal pergunta e respondo-lhe "O meu". "Deixa-te de brincadeiras" é tudo o que eu ouço da boca dela. Eu, a não achar piada nenhuma, respondo-lhe logo "Mãe, estou não estou a brincar. O casamento é meu. Hoje à tarde vou-me casar. Não me diga que se esqueceu, mãe. Há cinco meses que eu estou a prepará-lo, com a sua ajuda. Não se lembra?" e diz-me muito pausamente "Filha. Se te cassasses hoje, achas mesmo que me iria esquecer? Tu deves ter sonhado ou coisa assim do género. Hoje não te vais casar, não há nada preparado.". Eu respiro fundo. Obviamente que o estado de saúde da minha mãe está a piorar. Uma coisa é não saber onde deixou as chaves de casa ou se não se lembra se sempre chegou a trancar o carro; outra é esquecer-se do casamento da sua filha única. Eu sento-me e faço-lhe um gesto para ela se sentar ao meu lado, também. Sentadas, eu começo a falar. "A mãe tem de se lembrar, até me ajudou a escolher o vestido no outro dia. Ajudou-nos, a mim e ao Guilherme, com os convites, as flores, o local, a igreja. Com tudo praticamente." e tudo o que ela me diz em seguida é "Quem é o Guilherme, minha filha?". Ora, aí eu levanto-me com uma rapidez parva. Quem é o Guilherme?! Minha nossa, o Guilherme é o noivo. Como pode ela não se lembrar de uma pessoa com quem conviveu durante seis anos. Seis. Para lhe mostrar quem ele é, procuro na minha carteira uma fotografia dele. Tenho sempre uma guardada no meu porta-moedas. Uma de nós os dois a festejar o quinto ano juntos. Mas não a encontro. Talvez seja por estar nervosa que não encontro o que procuro. Quando a minha mãe se apercebe que não tenho fotografia dele, começa a falar calmamente como se eu estivesse a endoidecer. EU, a endoidecer. Por favor. Decido ligar à minha melhor amiga para comprovar à minha mãe que o noivo sempre existe e que o casamento hoje à tarde também, obviamente. Quando ela atende o telefone e eu lhe ponho a par o que se passou, ela pergunta-me quem é o Guilherme. Eu desligo o telefone. Mas o quê que se passa para ninguém se lembrar do Guilherme? Estou a ficar preocupada e onde é que está o Guilherme?, pergunto a mim própria. Despeço-me da minha mãe que me olha como se eu estivesse doente e vou a correr para o carro. Tenho de ir ter com ele, só ele pode então provar de que de facto existe. Apanho cinco semáforos todos eles vermelhos, para variar, e condutores lentos e mal educados. Ao longe já vejo o edifício onde ele trabalha como vice-director. Estaciono o carro mesmo em frente à entrada principal e, já no piso onde ele tem o seu escritório, passo pela secretária e dirigo-me com pressa à porta dele. Digo-lhe que quero falar com o Arq. Guilherme Gouveia e ponho a mão na maçaneta da porta. Lá ao fundo ouço-a a dizer que teria primeiro que me anunciar antes de eu poder entrar. Eu não lhe liguei. Bati à porta e ouvi a voz dele do outro lado. Fiquei mais calma. Sempre existe, não estou a ficar maluca como a minha mãe me sentenciou com o seu olhar ainda há pouco. Abro a porta e digo-lhe com um sorriso rasgado "Sou eu, amor, a Sofia.". Ele focou-me o seu olhar e com ar de ponto de interrogação pergunta-me "Desculpe, quem?".

only lonely

mal aqui chego, sinto-te . és o vento que sopra silenciosamente nos meus ouvidos . és o calor que a minha pele sente . és as ondas a baterem-me ruidosamente nos meus pés . és cada grão de areia que eu piso . quando eu chego aqui, tu voltas para mim . toda a nossa história vem-me à memória . nunca a esqueci, obviamente . apenas a relembro como se voltasse atrás, talvez . aí, posso jurar que tu estás ao meu lado . quando fecho os olhos, tento ouvir-te no vento . ouço-te a dizeres-me 'meu amor, eu voltei' e deito uma lágrima que tu me secas com o calor . descalço-me e piso-te a areia branca e quente . estendo a toalha perto do mar azul e deito-me e fecho os meus olhos . sinto-te com todos os meus sentidos . sinto-te como há quatro anos que não sentia . sinto-te mal aqui chego.
sinto-te.

domingo, 17 de agosto de 2008

Como muita gente, eu já fiz muitas coisas. Já gritei de susto ao ver filmes de terror, gritei para incentivar os meus amigos, gritei para os chamar à atenção. Já fiz a dança da vitória e músicas do tipo cheerleader. Já fiz t-shirts com o nome do meu grupo e exibo-a com imenso orgulho. Já fiz duas revistas e um filme com as minhas amigas. Já andei a filmar entrevistas sobre moda, na Baixa. Já dei abraços a pessoas completamente desconhecidas. Já fiz um piercing e quero fazer outro. Já comprei algo que nunca usei. Já sorri com os olhos. Já tentei ler pensamentos. Já joguei ao sério mas nunca ganho. Já ganhei cinco vezes seguidas a sueca. Já fui ao estrangeiro com as minhas amigas. Já sai oito (?) noites seguidas. Já desfilei a pensar que era a Tyra Banks. Já desisti de muita coisa. Já fiz promesas de início de ano que nunca cumpri até hoje. Já tentei esquecer pessoas sem sucesso. Já ri muito até me doerem as bochechas. Já fiquei feliz por conseguir fazer novos amigos. Já chorei sem deitar uma lágrima, a ouvir música, a ver fotografias antigas do meu albúm. Já chorei por não confiarem em mim. Já perdi amigos. Já me desiludiram e já me mentiram, assim como eu também já fiz isso. Já houve alturas em que não consegui dizer a verdade. Já disse a verdade muitas vezes e ainda bem que o fiz. Já dou valor às pessoas e o que elas fazem por elas e por mim. Já cai vezes sem conta e umas vezes precisei de ajuda, outras vezes consegui levantar-me sozinha. Já cometi muitos erros e voltei a repeti-los duas, três vezes.

Já consigo ouvir elogios sem ficar convencida. Já ouço críticas sem ficar ofendida. Só fico ofendida quando me dizem que guio mal enquanto guio. É verdade, já tenho a carta de condução e já bati com o carro.Já esperei pelos outros e ainda espero por alguns. Já estive apaixonada. Já lutei pelo que quis quando me pareceu que podia ter. Já pensei que não iria recuperar algo. Já não espero mais de quem eu sei que não dá. Agora dou aquilo que recebo. Já tens alguns grandes amigos. Já desmarquei compromissos para estar com outra pessoa. Já usei coisas de outras pessoas sem pedir autorização. Já magoei amigos e já fui perdoada. Já sonhei bem alto. Já falei durante o sono, mas o costume é apenas rir-me. Já dei muitos “sacos”. Já fiquei roxa de vergonha. Já tremi por nervosismo. Já senti o meu estômago a dar valentes nós. Já experimentei fumar. Já pertenci a grupos. Já fiz promessas de semanas sim.

Já aprendi que a vida é demasiado curta. Já só quero saber do que realmente importa. Já aprendi espanhol, francês e linguagem gestual. Já cantei músicas sem saber a letra. Já enfrentei quem me apunhalou pelas costas. Já dei e dei e dei. Já dei o máximo de mim até doer. Já recebi massagens óptimas depois. Já consegui muita coisa que queria. Já cresci muito. Já penso mais em mim. Já aprendi que tudo o que vale a pena é difícil de o conseguir.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

reencontros com o passado

Francisca é fotógrafa e foi para África do Sul num trabalho. Neste momento encontra-se a olhar, pela objectiva da sua máquina, para tudo o que encontra. Avistou uma médica a tratar de um menino africano lá ao fundo. Foi tirando fotografias e aproximando-se cada vez mais. A uma certa altura ouviu:
- Are you new here? - Perguntou-lhe a médica. Pela pele branca e cabelos loiros, Francisca reparou logo que era britânica.
- Oh, hi... Yes, I arrived today.
- Are you here alone? - Sem nunca tirar os olhos da criança.
- No, no. I'm here with a friend of mine. Paulo. Do you know him?
- Oh yes, I know him.
Francisca parou para reflectir no que a médica acabou de responder. Claro que não o conhece. Não sabe que ele foi o primeiro rapaz quem ela beijou no quarto ano. Não sabe que quando entrou no oitavo ano, o Paulo lhe tinha pedido em namoro e ela tinha aceite. Não sabe, claro, que eles namoraram mais de oito anos. Não sabe que ela veio nesta viagem na esperança de se reconciliar com ele. Nem sonha que ele a beijou na casa de banho do avião há menos de duas horas. Como podia ela conhecê-lo?

Paulo saiu da pensão e viu a Francisca lá ao longe. Foi ter com ela e reparou que ela estava a falar com a médica. Quando chegou perto delas, disse, abraçando a inglesa.
- Have you met each other already?
Francisca hesitou um pouco ao vê-los abraçados e não respondeu. A médica respondeu por ela.
- We’ve just met right now. Is she your partner, honey?
- Yes, baby. Let me introduce you two. - olhou para a portuguesa - This is London Ledger, my wife. - olhou para a inglesa - And this is Francisca Lemos, my highschool friend.
«Wife? Friend?!» perguntou Francisca a si própria. «Como é que ele não me contou?». Para não ficar muito tempo sem dizer nada, Francisca acrescentou:

- Are you going to stay here? For how long?
- No, I'm leaving today. I'm needed somewhere else. - virou-se para Paulo - Honey, could you please help me over there with some stuff?
- Sure, sweetie. We'll be right back, Francisca.
- Nice to meet you, London. - afirmou a portuguesa.

Os dois afastaram-se da fotógrafa de mão dada. Ela não conseguia parar de olhar para os dois, felizes. Quando os perdeu de vista, virou-se para o lado, olhando pela objectiva, largando uma lágrima. Reparou que a sua máquina já estava a ficar sem bateria e, então, foi buscar o carregador da máquina. Entrou na pensão e, depois de ter perguntado qual era o seu quarto, dirigiu-se até ele. No quarto ao lado ouvia Paulo e London, a conversarem.

- Baby, I didn't ask... How is Coco? Is she fine? - perguntou Paulo.
- Oh, she misses us. I spoke to her two nights ago and she said that. You know, with four years old, she doesn't understand why do we have to be so far away from her.
- She'll understand some day. I miss her too. I'm staying here for one month but as soon as I'm done here, I'm going to meet the two women of my life.
- One month, baby? I am missing you already and you're still here.

Francisca, do outro lado da parede, começou a chorar. Desenterrar os sentimentos do passado não foi uma coisa certa. Aquele beijo nunca devia ter acontecido. Ela sabia que isto voltava ao de cima.