apanho o metro na estação ao lado de minha casa. lá dentro, a segurar a minha carteira e os meus livros, recupero o fôlego. na estação seguinte, eu saio. subo escadas e mais escadas até sentir o frio do vento na minha cara. recuso o jornal do metro e atravesso a rua. caminho mais uns passos até encontrar a minha estação de autocarro. nos próximos vinte minutos, olhava para o meu relógio, mandava uma e outra mensagem, passava o meu peso de um pé para o outro, olhava para o céu de tédio, entre outras coisas. passado algum tempo, sinto alguém a andar em minha direcção e a parar ao meu lado. olho para ele e ele olha-me de volta. rapidamente olho para o chão e rio-me. olhei mais uma vez para o relógio e logo de seguida para ele. ele, mais uma vez, olhou-me de volta. ficamos assim uns dois segundos, nem isso. voltamos a olhar para a frente. cinco minutos depois, dois autocarros chegaram. o meu era o que estava atrás. o dele era o da frente. ele passa pela minha frente e caminha até à entrada do autocarro. eu fiquei a olhar para ele, e ele para mim, até eu entrar no meu autocarro.
uma semana depois, ainda não o voltei a ver.
domingo, 26 de outubro de 2008
quinta-feira, 16 de outubro de 2008
Faculdade
Deito-me cedo na minha nova cama, na minha nova casa, ao lado da minha nova colega de quarto. Acordo com o meu despertador à hora do costume, bem cedo. Levanto-me e vou para o quarto de banho arranjar-me e vestir-me. Vou até à cozinha e tomo o meu sempre igual pequeno almoço. Pego nos livros e carteira e saio de casa. Desco pelo elevador os cinco pisos do prédio e apanho o metro à saída. Na paragem a seguir, saio e subo as sempre intermináveis escadas, atravesso a rua e ando até à paragem de autocarro. Fico sempre à espera dele uns bons vinte minutos e quando finalmente o vejo e ele pára, eu entro. Sento-me nas quatro paragens que se seguem e na quinta, pressiono o botão do stop e saio. Caminho até ao jardim e finalmente consigo ver a faculdade. Faço esse caminho até lá dentro sem tirar os olhos da minha faculdade. Subo as escadinhas e aí sim, sou feliz quando a piso!
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
say it isn't so
Que sensação tão estranha que tive agora. Parecia que estava noutro lugar mas quando dou por mim, estou parada no semáforo. A rua está cheia de carros e pessoas com os seus guarda-chuvas. Sinto-me perdida, como nunca me senti. Olho para o relógio para ver as horas e o dia de hoje. São oito e vinte e duas da manhã de sexta-feira dia dez de outubro de dois mil e oito.
Para onde é que eu estou a ir?, pergunto-me a mim mesma. Não sei. Enquanto aguardo pelo sinal verde, chego até à minha carteira e tiro de lá a minha agenda. Reunião às nove e um quarto lá no escritório. Ah, lembro-me! E aí, voltei em mim. Tenho uma reunião e se estes semáforos não se despacham, eu vou chegar atrasada! Chego ao meu gabiente mesmo em cima da hora e só tenho tempo de atirar a minha carteira para cima da secretária e pousar o casaco na cadeira. Pego num bloco de notas e na minha pasta e vou, a passo apressado, até à sala onde costumo ter as reuniões com os meus clientes. Olho discretamente muitas vezes para o relógio porque o Pedro já devia ter cá chegado. Não é nada dele chegar atrasado aos seus compromissos.
Será que teve um acidente? Adormeceu? Que lhe aconteceu? e olho novamente para o relógio.
Chega a uma altura e eu prossigo com a conversa sozinha, sem pensar outra vez no Pedro e onde se meteu ele.
No final, despeço-me dos meus dois clientes sorridentes e vou até ao meu gabiente novamente. Sento-me na cadeira e, dois segundos de descanso depois, pergunto à minha secretária, pelo telefone, pelo Pedro.
- Quem, Dra?
Levanto-me da minha confortável cadeira e vou ter até ela. Explico-lhe quem é e ela diz-me que o Dr Pedro se despediu há quase dois meses.
- Não se lembra? - Pois não me lembro, ainda ontem tive com ele ali no meu gabiente, como é que ele já não põe lá os pés há dois meses? Ainda ontem lá em casa falamos sobre o trabalho. Com cara de incrédula, despeço-me da minha secretária e telefono para casa, para falar com ele. «Telefonou para casa de Pedro Gameiro, por favor deixe mensagem após o sinal». O quê que aconteceu ao «Olá, eu sou o Pedro e esta é a mulher da minha vida... Então, Carolina, diz o teu nome... Vá, deixa de ser envergonhada!»? Estaciono o carro à porta de casa e, depois de encontrar as chaves de casa, vou até à porta. Não entram. Tento uma e outra vez e não entram mesmo. Ainda hoje de manhã tranquei a porta, como é que já não dá?
Vou até ao carro e sento-me lá. Ligo o telemóvel e ligo-lhe para o dele. Toca e toca e toca e nada. Insisto mais uma e outra vez para saber porquê que ele mudou a fechadura da casa sem falar comigo primeiro. De telemóvel ao ouvido olho para o outro lado da janela e vejo-o a ele a dirigir-se para casa. Ao sair do carro, ouço alguém a chamar por ele, que o faz desviar a atenção dele em direcção a ela. Quando se aproxima dele, dá-lhe um beijo e entram em casa de mão dadas. Nesse momento, vejo a minha vida a andar para trás. Como é que o Pedro foi capaz de me fazer isto? O quê que aconteceu? Meu deus!
Acordo sobressaltada na minha cama. Que sensação estranha. Parecia mesmo real e afinal não passou de um sonho. O Gonçalo está na cama ao meu lado. Faço barulho a levantar-me da cama e acordo-o.
- Já vais embora, Rita? - Digo-lhe que sim e dou-lhe um beijo de bons dias. Tomo o pequeno-almoço e vou para o escritório. Apanho quase todos os semáforos vermelhos e parada num deles, recordo-me do sonho. Volto à realidade com o meu telemóvel a tocar. Atendo-o.
- Querida, demoras muito? Estamos todos à tua espera! - O quê? Ainda há pouco me despedi dele em casa.
- Gonçalo? - E ouço risos.
- Há algum Gonçalo que te chama querida? Sou eu, Sara. O Dinis.
- Desculpe, deve ser engano. - E desligo.
Chego ao escritório dez minutos depois do telefonema estranho. Cumprimento toda a gente e sento-me na minha cadeira, no meu escritório. Truz-Truz.
- Entre.
- Sara, querida, então porquê que só chegaste a esta hora? - pergunta-me alguém que nunca vi na minha vida.
Sara, outra vez?
- Tu és o Dinis do telefonema? - pergunto-lhe.
- Sim, querida. - E ri-se. - Achei imensa piada ao telefonema mas agora estás a deixar-me preocupado. Passa-se alguma coisa?
- Porquê que me chamas querida?
- Hm, será por seres minha namorada há sete anos, queridinha? - e tenta dar-me um beijo mas, eu afasto-me. - Passa-se mesmo qualquer coisa. Que aconteceu depois de eu te deixar em casa hoje de manhã?
- Acordei com o Gonçalo na minha cama e o meu nome é Rita.
A expressão da cara do tal Dinis mudou. Tornou-se pesada e preocupada. - Não tomaste os comprimidos hoje de manhã, pois não?
- Agora sou maluca? Vais-me dizer que não há Gonçalo nenhum e que eu não sou Rita, é?
- Sara, querida, não és maluca mas precisas mesmo de os tomar por causa da tua condição. É exactamente para evitar estas situações que os tomas.
Ambos são interrompidos por uma senhora baixinha e muito bem educada. - Dra Sara, precisava que me assinasse isto.
- Agora não, Rosário, deixe isso para depois, sim? - ele responde.
- Com certeza, Dr Dinis.
Sento-me na cadeira sem expressão.
- Sara? Mas eu não sou Sara, eu não me chamo Sara. Eu não me chamo Sara. Ninguém percebe isso? Eu sou a Rita. Chamo-me Rita. O meu nome é Rita. E o Gonçalo existe. Eu não te conheço. Eu não acredito em ti. Eu não sou a tua querida, eu nunca te vi na minha vida! Eu sou a Rita. Percebe isso: Rita!
Abraço-me e sinto-me a ir para a frente e para trás há medida que grito o meu nome.
Acordo e fico feliz por ter sido apenas um sono. Não estou a ficar maluca, que sensação. Parecia tão real e, afinal, não passava de um sonho, de um pesadelo! Olho para o lado e vejo o Diogo a dormir na nossa cama.
Para onde é que eu estou a ir?, pergunto-me a mim mesma. Não sei. Enquanto aguardo pelo sinal verde, chego até à minha carteira e tiro de lá a minha agenda. Reunião às nove e um quarto lá no escritório. Ah, lembro-me! E aí, voltei em mim. Tenho uma reunião e se estes semáforos não se despacham, eu vou chegar atrasada! Chego ao meu gabiente mesmo em cima da hora e só tenho tempo de atirar a minha carteira para cima da secretária e pousar o casaco na cadeira. Pego num bloco de notas e na minha pasta e vou, a passo apressado, até à sala onde costumo ter as reuniões com os meus clientes. Olho discretamente muitas vezes para o relógio porque o Pedro já devia ter cá chegado. Não é nada dele chegar atrasado aos seus compromissos.
Será que teve um acidente? Adormeceu? Que lhe aconteceu? e olho novamente para o relógio.
Chega a uma altura e eu prossigo com a conversa sozinha, sem pensar outra vez no Pedro e onde se meteu ele.
No final, despeço-me dos meus dois clientes sorridentes e vou até ao meu gabiente novamente. Sento-me na cadeira e, dois segundos de descanso depois, pergunto à minha secretária, pelo telefone, pelo Pedro.
- Quem, Dra?
Levanto-me da minha confortável cadeira e vou ter até ela. Explico-lhe quem é e ela diz-me que o Dr Pedro se despediu há quase dois meses.
- Não se lembra? - Pois não me lembro, ainda ontem tive com ele ali no meu gabiente, como é que ele já não põe lá os pés há dois meses? Ainda ontem lá em casa falamos sobre o trabalho. Com cara de incrédula, despeço-me da minha secretária e telefono para casa, para falar com ele. «Telefonou para casa de Pedro Gameiro, por favor deixe mensagem após o sinal». O quê que aconteceu ao «Olá, eu sou o Pedro e esta é a mulher da minha vida... Então, Carolina, diz o teu nome... Vá, deixa de ser envergonhada!»? Estaciono o carro à porta de casa e, depois de encontrar as chaves de casa, vou até à porta. Não entram. Tento uma e outra vez e não entram mesmo. Ainda hoje de manhã tranquei a porta, como é que já não dá?
Vou até ao carro e sento-me lá. Ligo o telemóvel e ligo-lhe para o dele. Toca e toca e toca e nada. Insisto mais uma e outra vez para saber porquê que ele mudou a fechadura da casa sem falar comigo primeiro. De telemóvel ao ouvido olho para o outro lado da janela e vejo-o a ele a dirigir-se para casa. Ao sair do carro, ouço alguém a chamar por ele, que o faz desviar a atenção dele em direcção a ela. Quando se aproxima dele, dá-lhe um beijo e entram em casa de mão dadas. Nesse momento, vejo a minha vida a andar para trás. Como é que o Pedro foi capaz de me fazer isto? O quê que aconteceu? Meu deus!
Acordo sobressaltada na minha cama. Que sensação estranha. Parecia mesmo real e afinal não passou de um sonho. O Gonçalo está na cama ao meu lado. Faço barulho a levantar-me da cama e acordo-o.
- Já vais embora, Rita? - Digo-lhe que sim e dou-lhe um beijo de bons dias. Tomo o pequeno-almoço e vou para o escritório. Apanho quase todos os semáforos vermelhos e parada num deles, recordo-me do sonho. Volto à realidade com o meu telemóvel a tocar. Atendo-o.
- Querida, demoras muito? Estamos todos à tua espera! - O quê? Ainda há pouco me despedi dele em casa.
- Gonçalo? - E ouço risos.
- Há algum Gonçalo que te chama querida? Sou eu, Sara. O Dinis.
- Desculpe, deve ser engano. - E desligo.
Chego ao escritório dez minutos depois do telefonema estranho. Cumprimento toda a gente e sento-me na minha cadeira, no meu escritório. Truz-Truz.
- Entre.
- Sara, querida, então porquê que só chegaste a esta hora? - pergunta-me alguém que nunca vi na minha vida.
Sara, outra vez?
- Tu és o Dinis do telefonema? - pergunto-lhe.
- Sim, querida. - E ri-se. - Achei imensa piada ao telefonema mas agora estás a deixar-me preocupado. Passa-se alguma coisa?
- Porquê que me chamas querida?
- Hm, será por seres minha namorada há sete anos, queridinha? - e tenta dar-me um beijo mas, eu afasto-me. - Passa-se mesmo qualquer coisa. Que aconteceu depois de eu te deixar em casa hoje de manhã?
- Acordei com o Gonçalo na minha cama e o meu nome é Rita.
A expressão da cara do tal Dinis mudou. Tornou-se pesada e preocupada. - Não tomaste os comprimidos hoje de manhã, pois não?
- Agora sou maluca? Vais-me dizer que não há Gonçalo nenhum e que eu não sou Rita, é?
- Sara, querida, não és maluca mas precisas mesmo de os tomar por causa da tua condição. É exactamente para evitar estas situações que os tomas.
Ambos são interrompidos por uma senhora baixinha e muito bem educada. - Dra Sara, precisava que me assinasse isto.
- Agora não, Rosário, deixe isso para depois, sim? - ele responde.
- Com certeza, Dr Dinis.
Sento-me na cadeira sem expressão.
- Sara? Mas eu não sou Sara, eu não me chamo Sara. Eu não me chamo Sara. Ninguém percebe isso? Eu sou a Rita. Chamo-me Rita. O meu nome é Rita. E o Gonçalo existe. Eu não te conheço. Eu não acredito em ti. Eu não sou a tua querida, eu nunca te vi na minha vida! Eu sou a Rita. Percebe isso: Rita!
Abraço-me e sinto-me a ir para a frente e para trás há medida que grito o meu nome.
Acordo e fico feliz por ter sido apenas um sono. Não estou a ficar maluca, que sensação. Parecia tão real e, afinal, não passava de um sonho, de um pesadelo! Olho para o lado e vejo o Diogo a dormir na nossa cama.
domingo, 5 de outubro de 2008
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