sexta-feira, 25 de abril de 2008

O Amor

«O amor puro não é um meio, não é um fim, não é um princípio, não é um destino. O amor puro é uma condição. Tem tanto a ver com a vida de cada um como o clima. O amor não se percebe. O amor é um estado de quem se sente. O amor é a nossa alma. É a nossa alma a desatar. A desatar a correr atrás do que não sabe, não apanha, não larga, não compreende. O amor é uma verdade. É por isso que a ilusão é necessária. A ilusão é bonita, não faz mal. Que se invente e minta e sonhe o que quiser. O amor é uma coisa, a vida é outra. A realidade pode matar, o amor é mais bonito que a vida. A vida que se lixe. Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz. Não se pode ceder. Não se pode resistir.

A vida é uma coisa, o amor é outra.»

quinta-feira, 24 de abril de 2008

Copo de Água

Levantando o copo de cristal de champagne, ele disse em voz alta perante todos os seus amigos e familiares que se encontravam na sua mesa e nas mesas à sua volta:
- Gostava de fazer um brinde. Um brinde à minha amiga de infância. Ela esteve sempre comigo nos melhores momentos da minha vida e ajudou-me bastante nos maus. Lembro-me uma vez - até foi engraçado - de quando eu fui operado. Tive de ficar duas semanas no Hospital e ela não saia da minha beira, passava lá os dias e as noites. Teve que ser a minha mãe, ao fim de alguns dias, a mandá-la para casa, descansar.
Apenas se ouvia a voz dele e via-se os olhares atentos dos convidados, enquanto falava orgulhosamente da sua amiga. Ele fez silêncio por uns segundos e depois acrescentou:
- Descobri o amor pela primeira vez com ela ao meu lado, descobri sensações que até então desconhecia. O sentimento por dela vinha e vem daqui, bem do fundo.
Silêncio.
- Agora que encontrei outra mulher por quem eu estou terrivelmente apaixonado e quero construir família ao lado dela, - disse, olhando para a mulher, sentada ao seu lado, vestida de branco. - tenho de agradecer à minha grande amiga por me ajudar a tomar as melhores decisões e me pôr, continuamente, os pés no chão quando, de vez em quando, sonho demasiado alto. Queria, também, agradecer-lhe por ter estado comigo hoje enquanto eu me preparava para casar com a minha mulher. Sofia, obrigada por todos estes anos que me fizeste feliz e obrigada por me teres entregue a Matilde.

quarta-feira, 23 de abril de 2008

Vencedor

O som da campainha do apartamento do Gui tocou. Ele dirigiu-se à porta.
- Sempre pontual, Sofia - comentou, olhando para o relógio. E acrescentou: - Vá, entra.. Não fiques à porta.
Ele fechou a porta.
- Bem, vamos fazer o que me trouxe até cá? - questionou Sofia.
Sentaram-se no chão da sala, em frente à televisão e jogaram playstation durante a maior parte da tarde. No final, a Sofia gostava de poder declarar um empate mas o Gui fez questão de dizer e gritar que era o vencedor. Sofia perguntou-lhe «- Vá, que queres de prémio então?» e ele respondeu:
- Que me mostres umas defesas de karaté! Duvido muito que te consigas defender de mim. - afirmou, dando gargalhadas.
- Então vá, manda-me o teu melhor soco!
Ele mandou.
- Isto é o teu melhor, Gui? - desafiou-o.
Ele manda outro soco e Sofia surpreende-o com as suas defesas.
- Muito bem! E se eu te agarrasse assim, abraçando-te, com uma parede atrás de ti?
Sofia e Gui sentiram uma aproximação incómoda, deixando-os um pouco atrapalhados. Tentando afastar aquela sensação, Sofia disse:
- Uh, consigo sair mas tinha que te dar uma joelhada e eu não te quero mandar para o Hospital. - afirmou, esboçando um sorriso tímido.
- Não queres é sair daqui, escusas de inventar Sofia. - metendo-se com ela.
- Exacto, porquê que eu iria querer sair daqui, Gui?
- Estás a falar a sério?!
Ela só lhe devolveu um sorriso e, quando se apercebeu que se estava a passar um momento entre eles, tremeu. Ficou nervosa. Sentiu o desejo por ela só no olhar dele e sorriu por dentro. Ele aproximou a sua cara da cara dela para lhe dar um beijo. Estiveram mesmo para o dar mas ela não conseguiu. Fugiu-lhe por baixo e foi para trás dele. Ele virou-se, surpreendido, e ela começou a dançar a sua dança da vitória.
- Ficaste contente? - perguntou desiludido.
Ela hesitou.
- Não.
Ela aproximou-se dele. Encostou-o à parede e deu-lhe o beijo que ele lhe queria dar.

terça-feira, 22 de abril de 2008

Lição de Tango

«- O tango é violência - afirmou ele. - Um homem e uma mulher procuram-se aflitivamente e, assim que se encontram, fogem um do outro. Voltam a juntar-se e deixam-se de novo. É a dança de um amor sem fim.»

quarta-feira, 2 de abril de 2008

episódio

Às seis horas da manhã, ela acorda com a porta a bater ao fundo do corredor. Levanta-se da cama e veste uma camisola. Ainda de olhos meios fechados, sai do quarto e vai ter com ele. Ele sorri para ela e ela, depois de arranjar o seu cabelo com os dedos, faz-lhe uma cara de ponto de interrogação. «O que foi?», ele pergunta.

«O que foi?! Não me perguntes o que foi quando sabes exactamente o que se passa. Tu não podes entrar e sair sempre que te apetecer. Não podes fazer isso comigo. Não me sorrias. Não te atrevas a tornar esta conversa num dos meus episódios de histerismo. Não é. Tu entras na minha vida sempre com promessas que dizes que vais cumprir, entras com vontade de lutar por nós e depois desapareces. Desapareces durante dias e não me dizes uma única palavra. UMA ÚNICA PALAVRA. De ti só recebi silêncio. E durante esses dias pergunto-me «o que é que eu fiz?!». Eu pensava e pensava no que tinha feito. Revia todas as nossas conversas e atitudes na minha cabeça. Nada, não fiz nada. Não me olhes com essa cara. Estou a mentir por acaso? Não respondas. Ouve-me... Eu quero estabilidade, quero saber que posso contar contigo quando te preciso. Quero saber que estarás ao meu lado nos meus, nos nossos, dias maus, nos bons, nos óptimos e nos insuportáveis. Quero estar contigo sabendo que estás comigo. Ou estarei a exigir demasiado de ti? Não te chegues perto de mim. Não te quero ver a chegar às horas que te apetece a minha casa. Dá-me a chave. Estou a falar a sério! Dá-me a chave de casa.»