quarta-feira, 20 de agosto de 2008

seis anos e uma vida

Hoje é a véspera do meu casamento. Amanhã, dia dois de Setembro de 2009, vou-me casar com o homem que me faz feliz há seis anos. Estamos os dois deitados na nossa cama da nossa casa. Ele há pouco perguntou-me "Não acreditas naquele mito de que os noivos não devem passar a noite antes do grande dia juntos, pois não?" e eu respondi-lhe que não. Não acredito e aliás nunca passaria mais uma noite sem ele. Agora ele já está a dormir, abraçado a mim, como faz todas as noites. Desejou-me boa noite e deu-me um beijo. Amanhã espera-nos, a mim e a ele, um grande dia. Já pûs o despertador para tocar às oito horas da manhã e agora vou tentar dormir.
Às oito horas da manhã, o despertador toca sem falhas. Desligo-o e viro-me para o lado da cama onde ele dorme sempre. Encontro-a vazia, ele não está aqui. "Estranho", penso, "Ele já se levantou!". Sendo assim, saio da cama e vou até ao quarto de banho que é mesmo aqui ao lado. Visto-me com a primeira peça de roupa que vejo à frente e prendo o cabelo num rabo-de-cavalo. Desco as escadas do meu duplex e entro na cozinha. Preparo o meu rápido pequeno-almoço e, assim que vou ao frigorífico, reparo que as minhas fotografias com ele já não estão coladas na porta. "Devem ter caído, não sei", penso. Depois de ter engolido a torrada e o leite, ligo à minha mãe. Do outro lado da linha, ouço-a a pedir-me para esperar por ela cá em casa. E espero. Assim que toca à campainha, dez minutos depois do telefonema, eu abro-lhe a porta. "Onde é que vamos, afinal?", pergunta-me. "Ao cabeleireiro, como combinado, mãe. Tenho que estar perfeita para logo à tarde, no casamento" respondo-lhe e penso que a minha mãe já se anda a esquecer de muitas coisas, o que não é normal. Depois disso, pergunta-me com cara de interrogação "Que casamento, filha?". Ora, não acho normal tal pergunta e respondo-lhe "O meu". "Deixa-te de brincadeiras" é tudo o que eu ouço da boca dela. Eu, a não achar piada nenhuma, respondo-lhe logo "Mãe, estou não estou a brincar. O casamento é meu. Hoje à tarde vou-me casar. Não me diga que se esqueceu, mãe. Há cinco meses que eu estou a prepará-lo, com a sua ajuda. Não se lembra?" e diz-me muito pausamente "Filha. Se te cassasses hoje, achas mesmo que me iria esquecer? Tu deves ter sonhado ou coisa assim do género. Hoje não te vais casar, não há nada preparado.". Eu respiro fundo. Obviamente que o estado de saúde da minha mãe está a piorar. Uma coisa é não saber onde deixou as chaves de casa ou se não se lembra se sempre chegou a trancar o carro; outra é esquecer-se do casamento da sua filha única. Eu sento-me e faço-lhe um gesto para ela se sentar ao meu lado, também. Sentadas, eu começo a falar. "A mãe tem de se lembrar, até me ajudou a escolher o vestido no outro dia. Ajudou-nos, a mim e ao Guilherme, com os convites, as flores, o local, a igreja. Com tudo praticamente." e tudo o que ela me diz em seguida é "Quem é o Guilherme, minha filha?". Ora, aí eu levanto-me com uma rapidez parva. Quem é o Guilherme?! Minha nossa, o Guilherme é o noivo. Como pode ela não se lembrar de uma pessoa com quem conviveu durante seis anos. Seis. Para lhe mostrar quem ele é, procuro na minha carteira uma fotografia dele. Tenho sempre uma guardada no meu porta-moedas. Uma de nós os dois a festejar o quinto ano juntos. Mas não a encontro. Talvez seja por estar nervosa que não encontro o que procuro. Quando a minha mãe se apercebe que não tenho fotografia dele, começa a falar calmamente como se eu estivesse a endoidecer. EU, a endoidecer. Por favor. Decido ligar à minha melhor amiga para comprovar à minha mãe que o noivo sempre existe e que o casamento hoje à tarde também, obviamente. Quando ela atende o telefone e eu lhe ponho a par o que se passou, ela pergunta-me quem é o Guilherme. Eu desligo o telefone. Mas o quê que se passa para ninguém se lembrar do Guilherme? Estou a ficar preocupada e onde é que está o Guilherme?, pergunto a mim própria. Despeço-me da minha mãe que me olha como se eu estivesse doente e vou a correr para o carro. Tenho de ir ter com ele, só ele pode então provar de que de facto existe. Apanho cinco semáforos todos eles vermelhos, para variar, e condutores lentos e mal educados. Ao longe já vejo o edifício onde ele trabalha como vice-director. Estaciono o carro mesmo em frente à entrada principal e, já no piso onde ele tem o seu escritório, passo pela secretária e dirigo-me com pressa à porta dele. Digo-lhe que quero falar com o Arq. Guilherme Gouveia e ponho a mão na maçaneta da porta. Lá ao fundo ouço-a a dizer que teria primeiro que me anunciar antes de eu poder entrar. Eu não lhe liguei. Bati à porta e ouvi a voz dele do outro lado. Fiquei mais calma. Sempre existe, não estou a ficar maluca como a minha mãe me sentenciou com o seu olhar ainda há pouco. Abro a porta e digo-lhe com um sorriso rasgado "Sou eu, amor, a Sofia.". Ele focou-me o seu olhar e com ar de ponto de interrogação pergunta-me "Desculpe, quem?".

Sem comentários: