quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Tantas vidas.

«Eu amo-te de uma forma que nunca amei ninguém. Não te amo mais ou menos que os outros que amei na vida. Amo-te diferente. Até porque tu próprio és diferente. Como eu nunca conheci até hoje. És-me o oposto em tantas coisas e, mesmo assim, conseguiste mostrar-me que somos o mesmo em muita coisa também. Despertaste em mim alegria sincera, como eu nunca tinha sentido. Mas mais do que alegria eterna que todos os apaixonados sentem no início, eu experimentei tristeza sobretudo, quase todos os dias. Porque, apesar de estar contigo todos os dias, não me mostravas o teu eu, a tua história de vida. Ficava triste quando desviavas o teu olhar do meu, quando tiravas a tua mão da minha mesmo quando a tinhas tocado por micro segundos, quando ao fim de uma noite te despedias de mim com um beijo na face e um até amanhã. Todos os dias experimentava um cocktail de emoções e não sabia como digeri-las ou mesmo percebê-las. Tu davas-me a volta à cabeça, ao estômago e ao coração.», disse-me a Catarina, enquanto eu trocava de roupa no balneário. Ela proferia cada palavra com cuidado e fazia pausas dramáticas em casa ponto final, quase como se tivesse a representar, mas não o estava a fazer.

Depois de ter vestido as calças e camisola azuis claro, peguei num elástico e prendi o meu cabelo bem em cima, olhando-me ao espelho, enquanto digeria cada palavra sua. Em seguida, olhei para ela, que estava sentada no banco comprido de madeira lascada com uma folha de papel toda enrugada. – Uau. Mas… diz-me uma coisa… tu estás a acabar com ele ou… é que não deu para perceber o que querias… ou não querias nada? – pergunto, confusa.

Ela suspirou e depois disse-me. – Eu tenho que acabar com ele… é que ele não me faz bem… ele… com ele é como andar numa montanha russa… desde o início, e eu andei nessa montanha este ano todo e até agora – pausa – até agora tenho sempre descido o mesmo que tenho subido. – Enruga a testa ao mesmo tempo que me pergunta «percebes?».
- Mas tu não gostas dele?
- Camila… Para mim, ele é tipo… uma droga, estás a ver? Uma droga fortíssima e eu estou completamente viciada… Eu mais do que gostar dele, eu preciso dele para viver… Eu fico de rastos quando não estou com ele, ou quando não falo com ele, ou quando não estou a centímetros dele, quase a tocar-lhe. Quando o meu telemóvel toca, é uma ânsia em saber se é ele e quando não é, meu deus, quando não é apetece-me atirar com o telemóvel à parede. – Enquanto me fala, eu fico estática a olhar-lhe os olhos. – Estás a ver a gravidade do meu sentimento por ele? Parece-te saudável? Eu digo-te por experiência própria que não é. – Percebo que acabou de falar quando fica a olhar para a folha de papel e a começa a dobrar uma e outra vez.
- Não é nada saudável. Não sabia que te sentias assim… Como é que eu não reparei? Eu vi que vocês eram muito chegados, muito íntimos mas não sabia que vocês eram mais do que amigos…. – E interrompe-me.
- Mas nós não somos mais que amigos, aliás, nunca o fomos. E, por isso mesmo, é que eu estou assim e preciso de acabar com ele… mas é um acabar entre aspas porque não começou nada entre nós que se possa acabar.
- Sim. – Respondo, sentando-me ao lado dela no banco. – Acho que deves fazer o que for melhor para ti. E se isso é o melhor, tens todo o meu apoio, Catarina. Vais falar com ele hoje?
- Não, só amanhã. Entro de banco daqui a pouco.
- Hm, está bem. Mudando agora de assunto, para temas mais alegres… Nem sabes quem me pediu para ir tomar café depois do meu turno de hoje… - digo-lhe toda entusiasmada, quase a sair o nome dele da minha boca. Mas controlo-me.

Ela muda de expressão e faz uma cara curiosa como se gritasse «Diz! Diz!» e eu sorrio-lhe. – Quem me convidou para ir tomar café com ele hoje à noite foi o…
Fui bruscamente interrompida pelo bater da porta do balneário e pela entrada pesada e autoritária do nosso assistente. – Chega de conversa, vamos todos trabalhar. Os que vão começar agora o turno, venham rápido que chegaram duas ambulâncias. Não quero ver ninguém aqui dentro.

Eu olho para a Catarina e ela pergunta-me entre os lábios «foi este?» e eu respondo-lhe apenas com o meu olhar horrorizado. Não. Levanto-me, dou-lhe um beijo na testa e lá vou eu atrás do Dr. Castanha.

Sem comentários: