Está escuro quando acordei mas já era de dia. A única luz que eu via era a do meu telemóvel a piscar. Alguém está a telefonar-me. Estico-me até à mesinha de cabeceira e carrego na tecla verde. Sim?, perguntei com a minha voz de sono. Do outro lado ouvi um ríspido Sofia, é o seguinte. Ainda nem eram oito horas da manhã e este já estava a ser o pior dia da minha vida. A vontade de lhe desligar o telemóvel era tanta mas tive de me controlar para não criar mais problemas com ele. Deixei-o falar em silêncio. Também era-me impossível proferir qualquer palavra porque ele nem parava para respirar. Acabou com um igualmente grosseiro Percebeste? Então agora se me dás licença. Piii. Som de chamada terminada. Pousei o telemóvel na mesinha e voltei a cara para o tecto escuro que não o via. Respirei fundo e sai da cama contrariada. Meti-me debaixo da água fria à espera que ela lavasse todo o meu mau humor desta manhã. Não lavou nem o levou. Vesti uma t-shirt e uns leggins e sai de casa, sem relógio nem telemóvel. Entrei no café ao lado de minha casa e tomei um café duplo e um croissant para me dar energia. Corri durante 45 minutos no parque à frente de minha casa. Não falei com ninguém nem sequer vi ninguém. Para mim, foi como estar sozinha no parque. Pelo menos foi o que eu senti. Sozinha. No final, deitei-me no banco castanho velho e comecei a respirar. A respirar e a pensar. A única coisa que me rasgou um sorriso neste corpo cansado foi saber que falta um mês para eu fazer os tão esperados 21 anos. Eu tenho sempre este pensamento estranho. Penso sempre da mesma maneira nos meus anos e nas passagens de ano. Tudo vai ser diferente daqui para a frente. Ou então, que vou mudar aquilo que não gosto em mim ou o que faço. Acabo por mudar de penteado, roupa e carteira. E nos primeiros dias, até mudo um pouco de mim e tento sempre fazer algo melhor. Mas passados uns dias, volta tudo ao mesmo. E depois volto a correr pelo parque sentindo-me sozinha. Mas isto vai mudar. Eu sei que é difícil acreditar que sim, mas desta vez é a sério. Os 21 anos não são brincadeira nenhuma. E toda a gente diz que é a idade que as coisas à nossa volta mudam. Pois bem, eu vou mudar com elas. Quando eu tiver 21 anos, aquele telefonema não me deixar tão mal ao ponto de me obrigar a ir correr.
Sem comentários:
Enviar um comentário