Que sensação tão estranha que tive agora. Parecia que estava noutro lugar mas quando dou por mim, estou parada no semáforo. A rua está cheia de carros e pessoas com os seus guarda-chuvas. Sinto-me perdida, como nunca me senti. Olho para o relógio para ver as horas e o dia de hoje. São oito e vinte e duas da manhã de sexta-feira dia dez de outubro de dois mil e oito.
Para onde é que eu estou a ir?, pergunto-me a mim mesma. Não sei. Enquanto aguardo pelo sinal verde, chego até à minha carteira e tiro de lá a minha agenda. Reunião às nove e um quarto lá no escritório. Ah, lembro-me! E aí, voltei em mim. Tenho uma reunião e se estes semáforos não se despacham, eu vou chegar atrasada! Chego ao meu gabiente mesmo em cima da hora e só tenho tempo de atirar a minha carteira para cima da secretária e pousar o casaco na cadeira. Pego num bloco de notas e na minha pasta e vou, a passo apressado, até à sala onde costumo ter as reuniões com os meus clientes. Olho discretamente muitas vezes para o relógio porque o Pedro já devia ter cá chegado. Não é nada dele chegar atrasado aos seus compromissos.
Será que teve um acidente? Adormeceu? Que lhe aconteceu? e olho novamente para o relógio.
Chega a uma altura e eu prossigo com a conversa sozinha, sem pensar outra vez no Pedro e onde se meteu ele.
No final, despeço-me dos meus dois clientes sorridentes e vou até ao meu gabiente novamente. Sento-me na cadeira e, dois segundos de descanso depois, pergunto à minha secretária, pelo telefone, pelo Pedro.
- Quem, Dra?
Levanto-me da minha confortável cadeira e vou ter até ela. Explico-lhe quem é e ela diz-me que o Dr Pedro se despediu há quase dois meses.
- Não se lembra? - Pois não me lembro, ainda ontem tive com ele ali no meu gabiente, como é que ele já não põe lá os pés há dois meses? Ainda ontem lá em casa falamos sobre o trabalho. Com cara de incrédula, despeço-me da minha secretária e telefono para casa, para falar com ele. «Telefonou para casa de Pedro Gameiro, por favor deixe mensagem após o sinal». O quê que aconteceu ao «Olá, eu sou o Pedro e esta é a mulher da minha vida... Então, Carolina, diz o teu nome... Vá, deixa de ser envergonhada!»? Estaciono o carro à porta de casa e, depois de encontrar as chaves de casa, vou até à porta. Não entram. Tento uma e outra vez e não entram mesmo. Ainda hoje de manhã tranquei a porta, como é que já não dá?
Vou até ao carro e sento-me lá. Ligo o telemóvel e ligo-lhe para o dele. Toca e toca e toca e nada. Insisto mais uma e outra vez para saber porquê que ele mudou a fechadura da casa sem falar comigo primeiro. De telemóvel ao ouvido olho para o outro lado da janela e vejo-o a ele a dirigir-se para casa. Ao sair do carro, ouço alguém a chamar por ele, que o faz desviar a atenção dele em direcção a ela. Quando se aproxima dele, dá-lhe um beijo e entram em casa de mão dadas. Nesse momento, vejo a minha vida a andar para trás. Como é que o Pedro foi capaz de me fazer isto? O quê que aconteceu? Meu deus!
Acordo sobressaltada na minha cama. Que sensação estranha. Parecia mesmo real e afinal não passou de um sonho. O Gonçalo está na cama ao meu lado. Faço barulho a levantar-me da cama e acordo-o.
- Já vais embora, Rita? - Digo-lhe que sim e dou-lhe um beijo de bons dias. Tomo o pequeno-almoço e vou para o escritório. Apanho quase todos os semáforos vermelhos e parada num deles, recordo-me do sonho. Volto à realidade com o meu telemóvel a tocar. Atendo-o.
- Querida, demoras muito? Estamos todos à tua espera! - O quê? Ainda há pouco me despedi dele em casa.
- Gonçalo? - E ouço risos.
- Há algum Gonçalo que te chama querida? Sou eu, Sara. O Dinis.
- Desculpe, deve ser engano. - E desligo.
Chego ao escritório dez minutos depois do telefonema estranho. Cumprimento toda a gente e sento-me na minha cadeira, no meu escritório. Truz-Truz.
- Entre.
- Sara, querida, então porquê que só chegaste a esta hora? - pergunta-me alguém que nunca vi na minha vida.
Sara, outra vez?
- Tu és o Dinis do telefonema? - pergunto-lhe.
- Sim, querida. - E ri-se. - Achei imensa piada ao telefonema mas agora estás a deixar-me preocupado. Passa-se alguma coisa?
- Porquê que me chamas querida?
- Hm, será por seres minha namorada há sete anos, queridinha? - e tenta dar-me um beijo mas, eu afasto-me. - Passa-se mesmo qualquer coisa. Que aconteceu depois de eu te deixar em casa hoje de manhã?
- Acordei com o Gonçalo na minha cama e o meu nome é Rita.
A expressão da cara do tal Dinis mudou. Tornou-se pesada e preocupada. - Não tomaste os comprimidos hoje de manhã, pois não?
- Agora sou maluca? Vais-me dizer que não há Gonçalo nenhum e que eu não sou Rita, é?
- Sara, querida, não és maluca mas precisas mesmo de os tomar por causa da tua condição. É exactamente para evitar estas situações que os tomas.
Ambos são interrompidos por uma senhora baixinha e muito bem educada. - Dra Sara, precisava que me assinasse isto.
- Agora não, Rosário, deixe isso para depois, sim? - ele responde.
- Com certeza, Dr Dinis.
Sento-me na cadeira sem expressão.
- Sara? Mas eu não sou Sara, eu não me chamo Sara. Eu não me chamo Sara. Ninguém percebe isso? Eu sou a Rita. Chamo-me Rita. O meu nome é Rita. E o Gonçalo existe. Eu não te conheço. Eu não acredito em ti. Eu não sou a tua querida, eu nunca te vi na minha vida! Eu sou a Rita. Percebe isso: Rita!
Abraço-me e sinto-me a ir para a frente e para trás há medida que grito o meu nome.
Acordo e fico feliz por ter sido apenas um sono. Não estou a ficar maluca, que sensação. Parecia tão real e, afinal, não passava de um sonho, de um pesadelo! Olho para o lado e vejo o Diogo a dormir na nossa cama.
sexta-feira, 10 de outubro de 2008
domingo, 5 de outubro de 2008
quinta-feira, 18 de setembro de 2008
Despedida
Hoje tomei consciência de algo. Pensei bem e soube-o logo. Hoje eu estou a libertar-te de mim. De todo o meu eu. Hoje já não me pertences. Hoje és livre de seres quem tu és na realidade e gostares quem tu gostas de verdade. Hoje já não me deves explicações, nem eu as quero para nada. Hoje contento-me apenas com um cumprimento da tua parte. A partir de hoje, não vou exigir nada de ti, nada de que eu não tenha direito de exigir. Hoje vou deixar-te. Deixar-te em paz. Deixar-te com quem queres. Deixar-te para sempre. Hoje já não ocupas os meus pensamentos o dia todo, todos os dias. Hoje é o dia em que para mim, tu e eu acabámos. Demorou mas é como dizem «mais vale tarde do que nunca». Esta minha despedida veio tarde, mas veio. E aqui está ela. Aqui me despeço de ti e de tudo o que foste para mim. E aqui, também, te dou as boas-vindas como um amigo. E apenas isso.
O que devemos ter?
«Paciência e a altura certa... tudo acontece quando tem que acontecer. Uma vida não pode ser apressada, não pode ser inserida numa programação como tanta gente pretende. Temos que aceitar aquilo que nos é dado em qualquer momento, sem pedir mais. Mas a vida é interminável, o que quer dizer que nunca morremos; na realidade, também nunca chegamos a nascer. Apenas nos limitamos a passar por fases diferentes. Não tem fim. Os seres humanos têm muitas dimensões. Mas o tempo nao é como o vemos, trata-se em vez disso de um conjunto de lições que são aprendidas.»
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
a verdade é que...
... não gosto que as pessoas exijam de mim quando não estão em posição para o fazer.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Grey's Anatomy
MEREDITH: "Pain. You just have to ride it out. You can only hope it goes away on its own, hope the wound that caused it heals. There are no solutions, no easy answers, you just breath deep and wait for it to subside."
Albert Camus
«Desejamos que o amor perdure e sabemos que tal não acontece; e ainda que, por milagre, ele pudesse durar uma vida inteira, seria ainda assim um amor imperfeito. Talvez que, nesta insaciável necessidade de subsistir, nós compreendêssemos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que, por vezes, as grandes almas se sentem menos apavoradas pelo sofrimento do que pelo facto de este não durar. À falta de uma felicidade incansável, um longo sofrimento ao menos constituiria um destino. Mas não; as nossas piores torturas terão um dia de acabar. Certa manhã, após tantos desesperos, uma irreprimível vontade de viver virá anunciar-nos que tudo acabou e que o sofrimento não possui mais sentido do que a felicidade.»
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