Acordei de repente e não conseguia respirar. Estava a tremer e não podia ser do frio porque estávamos em pleno Verão. Podia não ter a certeza de muita coisa, mas disso tinha. Sabia que tinha feito anos ontem. Mas que pesadelo... Tentei respirar mais devagar e já me foi possível sair da cama. Ao acender a luz do meu quarto de banho, tive um flash do meu pesadelo. E fiquei estática. Tentava sair de casa mas todas as portas e janelas tinham sido trancadas. Não estava sozinha, estava com a namorada do meu melhor amigo. Estávamos as duas aterrorizadas e sem saber o que fazer. Chamamos por ele mas não o encontrávamos em lado nenhum. Já começávamos a sentir o fumo a entrar nos nossos pulmões. A sala da televisão estava a arder e nós não conseguíamos sair de casa. Eu não quero morrer... Eu não quero morrer! Quando finalmente os meus olhos viam o presente, respirei fundo e tentei acalmar-me outra vez. Depois de vestida, entrei no quarto do meu melhor amigo e acordei-o.
- Parabéns, Sofia! Dá cá um abraço ao rapaz da tua vida. - disse-me com um sorriso na boca e os olhos ainda meio fechados.
Eu levantei a sobrancelha. - Pedro, Pedro... Ontem à noite foram copitos a mais, não? - e abri a persiana. Espreito pela persiana e vejo a namorada dele a vir em direcção à nossa casa, ao mesmo tempo que o ouço dizer "Não, Sofia. Ontem à noite estivemos a estudar até tarde, não te lembras? Hoje são os teus anos." e tenho um flash.
- A tua namorada está a vir para cá... - digo-lhe ainda virada para a janela. - É a segunda manhã que ela vem para cá.
Ouço um riso distorcido. - Estás a brincar? Ela chegou ontem de Paris. E eu disse-lhe para vir hoje de manhã para te cantarmos os parabéns. - hesita. - Tu não me pareces bem... - agarra na minha mão e pergunta-me: - Estás bem?
Eu fico a olhar-lhe e finalmente lhe digo, ao mesmo tempo que o abraço. - Eu não quero morrer.
Ele ri-se. - Sofia, só ficaste um ano mais velha, tu não vais morrer.
A campainha toca e nós os dois descemos.
O Pedro abre a porta à Carolina e os dois começam a cantar os parabéns, tal e qual como no flash que ainda à pouco tive. Fomos para a cozinha e a determinada altura, eu digo, virada de costas para eles, "o copo vai cair". E dois segundos depois, ouço o estilhaçar do vidro.
Eles os dois ficam sem reacção e eu viro-me para eles e a minha cara espelha o medo que eu nunca tinha sentido.
E acrescento. - O João vem aí. Vai tocar à campainha agora e traz com ele dois embrulhos. Um para mim e outro para ti, Carolina.
A campainha toca. O Pedro arrasta-se para junto do intercomunicador e pergunta quem é. Do outro lado ouve-se "Sou eu, amigo, o John.". Eles os dois olham para mim como se eu fosse uma estranha. E eu não sei que lhes dizer.
O João entra em casa e vai até à cozinha ter connosco. Quando ele entra, para além de ver que ele traz dois embrulhos na mão, tenho outro flash do meu pesadelo.
- Parabéns, Sofia. Este aqui é para ti e este é para a Carolina.
- Presente para mim, porquê? - pergunta a Carolina, contente e desconfiada ao mesmo tempo.
- Oh, porque acho que vais gostar. Não há assim razão especial.
Nós abrimos os presentes. Ele deu-me um lenço turquesa, a minha cor favorita. Passado algum tempo, ficamos apenas eu e o João na cozinha. Perguntei-lhe se queria umas torradas e ele disse-me que sim. Enquanto eu fazia as torradas e punha a mesa para nós os dois, ele contava-me como ia a vida dele." - Sabes, tive a pensar desde aquela nossa conversa no outro dia. E tu tens razão... Eu gosto da Carolina. E magoa-me vê-la com ele. Eu já pensei em lhe dizer o quanto gosto dela e de lhe pedir em namoro." Eu olho para ele e relembro-lhe que ela já tem um namorado. Ele continua a conversa e tudo o que diz é que o Pedro não serve para ela e que ela mereceria alguém melhor. Eu cheia de ouvir aqueles disparates todos acerca do meu melhor amigo, apenas lhe digo "A conversa acaba aqui porque eu não quero continuar a ouvir-te insultar o Pedro na nossa casa. A Carolina está com ele e está feliz. E tu tens de respeitar isso e tentar seguir em frente, se queres ser feliz. Mas não estragues a felicidade dos outros." Antes de me virar costas e sair amuado da cozinha sem tomar o pequeno-almoço, tudo o que me diz é "Se eu não posso ficar com ela, ninguém pode".
De volta ao presente, eu aceito a prenda que ele me deu. Agito o embrulho e digo-lhe. "Bem, eu hoje já advinhei muita coisa. Posso tentar advinhar esta?"
- Claro que sim.
- Um lenço turquesa. - e abro-o ao mesmo tempo, tendo a minha confirmação.
- Uau, incrível.
- É, não é?
Mas eu não acho incrível.
- Carolina, posso falar contigo? - pergunto-lhe.
Depois de nos afastarmos deles, eu conto-lhe o meu sonho de ontem e o que se está a passar hoje. Conto-lhe que a casa vai começar a arder e nós as duas vamos ficar trancadas aqui dentro. Ela não acredita em mim, como seria de esperar. Será que estou a enlouquecer? Ela sai de ao pé de mim e vai ter com o Pedro e o João chama-me até à cozinha e diz que precisa de falar comigo. Eu já sabia qual seria a conversa. Ele acaba com o "Se eu não posso ficar com ela, ninguém pode" e sai da cozinha. No meu sonho, eu fui para o quarto arranjar-me. Mas agora, segui-o silenciosamente para ver o que ele fazia. E vi. Vi-o a fechar as janelas à chave e a guardar a chave noutro local. Quando ele ia para outra janela, eu ia abrir as que ele tinha acabado de fechar. Fiz isso com as portas também.
Alguém agarra-me por trás e pergunta-me "o quê que pensas que estás a fazer?". A voz do João estava carregada de ódio, como eu nunca tinha ouvido. "Eu sei o que queres fazer... Mas eu não vou deixar que tu faças isso". Não sei como, já dou por mim a correr como se fosse para ganhar alguma medalha na rua de minha casa. Passo o banco, o café, a alameda, e corro corro corro em direcção à avenida. Hoje parece-me tão longe. Queria correr mais e chegar depressa ao posto da polícia mas as minhas pernas tramam-me, como sempre. Sinto que ele está quase a alcançar-me e então, sei pensar, eu começo a subir a uma árvore, que lá está. Subo e subo e agarro-me bem aos ramos. Ele tenta subir mas eu sei que não consegue. Nunca conseguiu. Um carro pára ao lado da árvore e eu grito com todo o ar que tenho dentro dos meus pulmões para chamarem a polícia. Eu grito e volto a gritar. Eu peço e volto a pedir. Eu suplico de lágrimas nos olhos, por favor, chamem a polícia. Eles não me ligam e engatam a primeira. Eu agora não sei o que fazer. Limpo as lágrimas e vejo uma camioneta a vir em nossa direcção, cheia de cabeças a espreitar nas janelas. Eu respiro e volto a gritar para chamarem a polícia. Vejo uma senhora toda preocupada que puxa do seu telemóvel e chama a polícia. Quando vejo as fardas, o meu coração reconhece e sente-se seguro. As minhas lágrimas secaram instantaneamente e a minha respiração já me obedece outra vez. Ouço alguém lá em baixo, a esticar-me os braços e dizer "já podes descer".
Eu desço devagar e quando os meus pés tocam no chão, o meu corpo lança-se no corpo dele e digo "Não fazes ideia do quanto eu estou contente por teres vindo. Eu estava a correr para ir ter ao teu posto mas não consegui." Aperto-o mais contra mim. "Obrigada, obrigada, obrigada" E ele envolve-me nos seus grandes braços e diz "Já estou aqui, Sofia. Podes acalmar" e beija-me os lábios.