- Sim... Exacto... É isso mesmo, Pedro. Queria que fosses ao centro imprimir as fotografias para podermos trabalhar hoje de tarde... Sim, pelo menos eu espero... Não, Pedro, não... Ainda não, ainda não pensei sobre a proposta de ir viver contigo... Pedro, falamos mais log...
Ela, no meio da multidão habitual que se forma pela manhã na Baixa, foi contra alguém, largando o telemóvel e deixando cair, sem se aperceber, a sua carteira. De imediato se baixa para pegar no telemóvel e vê que este não se liga. «Perfeito!», pensou. Em seguida, tocam-lhe no braço fazendo-a virar.
- Desculpe, nem a vi. Isto pertence-lhe?
Sem olhar para a outra pessoa, ela acenou a cabeça afirmativamente, pegando na carteira. Enquanto tentava mais uma vez ligar o telemóvel, ouve:
- Cam?
- Já há muito tempo que ninguém me chama isso.
Olhou para cima e fitou-lhe os olhos. Segundos mais tarde, que lhe pareceram uma eternidade, pergunta:
- Miguel?!
- Exactamente! Bem, aos anos que não te vejo. Então agora como é que te chamam?
- Camila da Cunha, a extraordinária fotógrafa da Must Portugal. - disse com orgulho.
- Uau. Sempre seguiste fotografia?
- Sim. Então e tu? Sempre seguiste o sonho de viajar pelo Mundo sem curso?
- Não. - disse, sorrindo. - Tirei o curso de jornalismo mas continuo a viajar pelo Mundo inteiro. Achei melhor ter qualquer coisa para fazer.
Eles riram-se e ela desistiu de tentar ligar o telemóvel. Guardou-o na carteira e olhou-o novamente.
- Queres... Queres vir tomar um café? - perguntou Miguel.
Ela, hesitante, respondeu-lhe que sim. Faz onze anos desde a última vez que se viram. Entraram no primeiro café que encontraram e sentaram-se na esplanada. Ambos se sentiam desconfortáveis mas, ao mesmo tempo, contentes por estarem novamente na companhia um do outro. Para quebrar o silêncio, ele começou a fazer conversa.
- Estás diferente, Cam. Quer dizer, continuas igual mas, ao mesmo tempo, diferente. Não deves perceber o que estou a tentar dizer, desculpa.
- Não, eu percebo-te. Continuo igual por fora: cabelo longo sempre apanhado com o primeiro lápis que eu apanho, calças de ganga gastas pelo tempo... Agora, claro, troco as sapatilhas velhas pelos sapatos de salto alto novos e as mochilas pelas carteiras.
Ele riu-se e ela continuou:
- Estou, obviamente, mais crescida. As minhas primeiras rugas já fizeram questão de aparecer, já não aguento correr meia hora sem parar de cinco em cinco minutos... Já sou mais inteligente intelectualmente e emocionalmente. Enfim, cresci.
- É mesmo isso. Agora é que me apercebi de uma coisa, que dia é hoje?
- Quarta-feira, dia 30 de Julho de 2008. Porquê?
Ele não respondeu. Em vez disso, ficou a olhá-la nos olhos, insistentemente. Ainda se sentia desconfortável mas, o Miguel não conseguia parar de o fazer. Ela lembrou-se.
**
Camila acordou cheia de energia para enfrentar o dia de hoje: era o seu último dia de aulas. Tomou o pequeno-almoço a correr para poder ter tempo de escolher a roupa para usar hoje. Queria, mais do que noutro dia qualquer, estar perfeita hoje. Demorou meia hora a escolher e, por fim, vestiu umas calças de ganga gastas, calçou as suas sapatilhas preferidas que já tinham muitos anos, vestiu um top azul turquesa e pegou na sua mochila. Saiu de casa e foi a pé até à sua escola. Quando chegou, foi ter com a sua melhor amiga, a Luísa e, juntas, acabaram o presente que Camila tinha feito para o seu namorado. Numa cartolina grande, fez uma colagem com as fotografias dos dois desde a altura em que se conheceram. A Luísa desenhou-lhe uns corações, enquanto que Camila escrevia o nome dos dois «Cam e Miguel Noronha» e espalhava pela cartolina datas importantes.
- Cam, podíamos também escrever assim um seis grande, já que vocês fazem seis anos de namoro. Que achas?
- Perfeito! Fazes tu?
- Sim, chega-me aí a caneta vermelha.
Enquanto a Camila lhe chegava a caneta, a Luísa comentou:
- Adoro esta vossa fotografia, vocês eram tão novinhos. Que idade tinham?
- Nessa eu tinha dez anos e ele tinha onze. Foi nesse dia que começamos a namorar. Lembro-me tão bem do dia. 30 de Julho de 1991.
- Vocês metem-me tanta inveja, também quero!
- E hás-de ter, Lu. Recebi uma mensagem do Miguel a dizer que já chegou à escola e que quer falar comigo. Até quero ver o que ele tem para me dar.
As duas amigas deram pulinhos de felicidade. Camila nunca esteve tão feliz como hoje. Mais do que nunca, sabia-o hoje que queria passar muitos mais anos ao lado do Miguel.
Camila foi ter com ele ao sítio onde costumavam passar os intervalos a namorar. Ele estava sentado nas escadas, à espera dela. Ela chegou-se perto dele e mostrou-lhe o que tinha preparado. Ele gostou imenso do que recebeu e deu-lhe um beijo.
- Também tenho uma coisa para ti.
Tirou da mochila um envelope e deu-lhe. Sentaram-se os dois nas escadas, um ao lado do outro.
Ela abriu-o e tirou de lá uma carta e uma fotografia dos dois. Virou-a e atrás estava escrito «amo-te cam, para sempre. 30.07.1991 - 30.07.1997» Ela sorriu-lhe, deu-lhe um beijo na cara e disse-lhe «também te amo.». Desdobrou a carta e começou a lê-la para si. O sorriso que à pouco esboçou tinha desaparecido por completo. Quanto mais lia, mais triste ficava e, quando acabou de ler a carta, levou as mãos à cara e começou a chorar. O Miguel apertou-a contra si. Ela abraçou-o com força e pediu-lhe que não se fosse embora. Os dois decidiram faltar às aulas e ficar ali, abraçados. Durante a manhã toda, ficaram a relembrar os bons tempos que passaram juntos. Camila só voltou a chorar na hora de se despedir dele, à hora do almoço. Camila foi directa para o seu quarto assim que entrou em casa. Não almoçou e não disse uma única palavra até à hora do jantar. Deitada na sua cama, relembrava o dia de hoje e aquelas palavras que nunca saiam da sua cabeça e a faziam a rapariga mais triste do mundo.
«meu amor, hoje fazemos mais um ano de namoro. toda a gente nos disse que nós íamos resultar porque formamos um par incrível e, eu próprio, também sou da mesma opinião. desde os meus onze anos que sou feliz, tudo graças a ti. estiveste sempre ao meu lado enquanto eu crescia e, hoje sou assim por tua causa. e só por isso, tenho que te agradecer outra vez. contudo, no futuro não nos vamos lembrar deste dia com grande alegria porque neste dia tenho uma noticia para te dar. eu não gostei, já gritei com os meus pais mas parece-me que eles já tomaram a decisão e eu, apenas com 17 anos tenho que a respeitar. os meus pais e eu vamo-nos mudar para inglaterra hoje de tarde. passei a noite toda de ontem a fazer as malas e a pensar em como te deveria contar isto. tive que escrever esta carta porque dizer-te pessoalmente e magoar-te, magoa-me. foste a minha primeira namorada e espero que saibas que nunca te vou esquecer. desculpa-me meu amor. se eu pudesse fazer alguma coisa para ficar contigo, fazia. mas não há. por isso, o dia de hoje vai ficar marcado com o dia em que começamos e o dia em que acabamos. mas, para mim, nós nunca vamos acabar. seremos sempre um do outro, independentemente de tudo o que possa vir. amo-te, Miguel Noronha.»
**
- Já sei do que estás a falar. - disse Camila - Grande coincidência encontrarmo-nos exactamente onze anos depois.
- É verdade, o mundo tem destas coisas. Com quem estavas a falar ao telefone à pouco?
- Uh, um amigo. Mas falando de ti, que vieste fazer para Portugal?
- Estou cá a viver, há dois que já estou cá.
- Dois anos? Uau. E nunca te lembraste, durante esses dois anos, não sei, de dizeres alguma coisa?
- Desculpa, tens razão.
- Eu é que peço desculpa. Não tenho o direito de te exigir isso. Tu seguiste com a tua vida e eu com a minha.
- Vá, estamos os dois desculpados então. Não vejo nenhuma aliança no dedo, logo casada não és. Namorado?
- Sim, há já dois anos. Chama-se Pedro.
- Pedro. E isso é para durar?
- Eu acho que sim. Ele já me propôs ir viver para casa dele mas eu ainda não sei. Tinha que tomar uma decisão hoje. Era ele ao telefone à pouco.
- Porquê que disseste que era um amigo, então?
- Fiquei com dúvidas por causa do rapaz que foi contra mim.
- Camila... - disse, baixando a cabeça.
Camila ficou envergonhada por ter dito aquilo.
- Desculpa, eu não devia ter dito isto. Vou-me embora.
Levantou-se da mesa e Miguel, com a mesma rapidez, fez o mesmo. Ficou à frente dela, agarrando-lhe um braço, impedindo-a que se fosse embora.
- Não deites tudo a perder com ele por minha causa, não faças isso.
Mesmo de saltos altos, ela tinha de olhar para cima para lhe ver os olhos.
- Não achas que foi um sinal teres vindo contra mim exactamente no momento em que eu falava sobre isso com ele?
- Não foi sinal nenhum, Camila, foi apenas uma coincidência. Não fiques a pensar no que não deves. Tu gostas do Paulo... uh, Pedro... Não vais ganhar nada se fores atrás do passado.
Camila queria chorar mas não o fez. Rapidamente se largou do Miguel e foi-se embora. Ele ficou a olhá-la enquanto ela saia do café.
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