Às sete horas da manhã, as duas levantaram-se e tomaram o pequeno-almoço juntas, sentadas em cima do balcão da cozinha, como costumam fazer. A Inês estava ansiosa e ao mesmo tempo nervosa porque não praticava o seu inglês há muito tempo mas a Madalena acalmou-a e disse que a maior parte dos que trabalham lá são Portugueses.
Ao chegarem à Clínica, a Inês ficou maravilhada com a beleza do edifício e adorou, mais uma vez, o nome que a sua amiga lhe pôs. MUST Clinic. A sua amiga foi apresentada à secretária Graça e ao Dr Espírito Santo, o outro sócio da Clínica. Também apresentou aos outros médicos e enfermeiros portugueses e uns quantos americanos. Madalena mostrou-lhe as instalações e o seu escritório.
Entretanto, Bernardo ficou encarregue de inscrever os filhos na escola Langmuir, pois havia lá uma professora Portuguesa que os iria ajudar a perceber a língua. O Miguel passou para o terceiro ano e os gémeos entraram para o primeiro ano. Já sozinho, o Bernardo foi a outras escolas à procura de emprego para professor de história de arte. Todas as escolas preparatórias disseram o mesmo “We don’t need another teacher, I’m sorry”. Sempre confiante, ele tentou as galerias de arte e os Museus. Ao fim de ser recusado duas vezes em galerias, entrou numa outra. Chamava-se Art Gallery. «Tanta originalidade!» pensou. Abriu a porta de vidro e entrou, esperando ver mais outra galeria igual às outras. Mas não foi isso que viu. Em vez disso, viu uma sala enorme pintada por artistas mundialmente conhecidos. Viu quadros lindíssimos e lindas esculturas. Ficou parado no centro da sala admirando e absorvendo tudo o que estava a ver. Contudo foi interrompido pelo próprio dono da galeria.
- Good afternoon, Sir. Can I help you?
- Wow. I’ve never seen such a beautiful gallery as this one.
- Thank you very much. I’m sorry, I’m Miguel Ventura, the owner of this beauty.
- Miguel Ventura? Are you Portuguese?
- Yes, I am in fact.
- Que coincidência. Também sou. Chamo-me Bernardo Queiroga. Acabo de me mudar para Miami e estou desesperadamente à procura de emprego. Tirei o curso de História da Arte…
- Na Faculdade de Arquitectura do Porto?
- Sim! E até ontem dava lá aulas. Você também?
- Também tirei lá o curso. O professor Guilherme Cruz continua lá?
- Também foi seu professor? Então, muito provavelmente, tiramos o curso mais ou menos na mesma altura. Já se reformou há um par de anos.
- Que engraçado. Nunca mais contactei com ninguém da faculdade. Mal acabei o curso vim trabalhar para Miami.
- E que tal?
- Estou a gostar muito da experiência e, como pode ver, estou muito bem instalado aqui.
- Estou a ver que sim.
- À procura de emprego, não é verdade? Acho que se arranja alguma coisa aqui.
- Está a falar a sério? Isso seria perfeito.
- Sim. Dava-me jeito mais um par de mãos aqui. Parece que não mas trabalho nesta galeria é o que não falta. Vamos ali ao meu escritório assinar contracto então?
- Perfeito.
Miguel mostrou as instalações ao seu mais recente empregado. Falou-lhe das festas que costuma fazer em vários Museus, dos artistas que conhece e como funcionava a galeria. No final, telefonou à sua mulher para contar as novidades e pediu-lhe que fosse ela a ir buscar os filhos à escola porque já tinha marcado um compromisso com o dono da galeria. A Inês concordou e ficou alegre por tudo estar a correr como imaginava.
À hora do almoço Madalena despediu-se da Inês e deu-lhe a chave do apartamento. Esta noite iria fazer o turno da noite do Hospital. Enquanto estava a ir para lá, decidiu telefonar ao Bernardo para lhe contar que tal tinha corrido a procura de trabalho.
- Foi óptimo. Já arranjei trabalho.
- Já? Perfeito! Onde?
- Numa galeria com um nome super original, nem eu me lembraria disso. Estou a brincar. Chama-se Art Gallery. O dono é o Migu…
- Miguel Ventura. Não acredito!
- Ui, conheces?
- Conheço. Conheci-o no aeroporto quando viemos os dois para Miami. É meu amigo e digo-te que melhor trabalho não poderias encontrar.
- Já reparei. Bem, vou almoçar com ele agora, Madalena. Até logo.
- Manda-lhe um beijo por mim. Até logo.
Dr. James entrou no seu escritório. Já passava da meia-noite e tinha acabado de atender o seu último paciente. Estava bastante cansado e só queria ir para casa. Ainda faltava mais uma hora para o seu turno acabar. Sentou-se na cadeira e começou a organizar uns documentos que estavam em cima da secretária. O seu telefone, em cima da mesa, começa a tocar. James carrega no botão, para ouvir em alta-voz Mrs Scavo.
- Dr. James, there’s someone who wants to talk to you and it seems to be very important… Line two.
- Thank you, Mrs Scavo.
James carrega no botão dois e pega no telefone.
- Dr. James Cavanaugh speaking.
- Good night, Dr. James. I’m calling from the Hope Hospital, in Los Angeles. Are you Sarah’s husband?
- Sarah?! What? No! I’m her brother. What happened? – Pergunta, bastante preocupado.
- Sarah Cavanaugh had a car accident this afternoon and she’s in surgery.
- What?? What? No! How bad is she? Please, tell me the truth, I’m a doctor.
- I don’t know yet. She’s still in surgery but when she arrived, she was in a very bad condition.
- Who’s the doctor in charge?
- Dr. Lyell, he’s the best…
- Oh! I know, he’s a friend of mine… Please tell him to call me as soon as possible, okay?
- Okay, Dr. I’m so sorry. Good night.
- Thank you. Good night.
James pousa o telefone sem ainda acreditar que a sua irmã mais nova teve um acidente de carro, no outro lado da América. Queria estar lá para ajudar e sentia-se incompetente e impotente. Atira com todos os documentos ao chão e começa a chorar.
Madalena entra no escritório de Dr. James, começando a falar.
- James, you have to help me in here… I just don’t know what… What… What happened? Why are all those documents in the floor? Are you crying? James, what happened? You are making me nervous… Tell me.
- Sarah… My god, Sarah had a car accident in LA.
- What? An accident? When? Are you sure? How do you know, James?
- Tonight… Yes, I’m sure Madalena… They call me from the Hospital one hour ago… This means she’s still in surgery and I don’t know how bad it is… I wish I was…
O telefone toca outra vez.
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