Anita foi quase a correr para o carro. Sentou-se ao volante e pousou a sua carteira no banco do lado. Já mais calma, ligou o carro e conduziu-o até ao parque de estacionamento dos escritórios. Subiu até ao quarto piso e entrou no seu gabinete. Ligou a luz do candeeiro ao lado para poder ver melhor e começou a trabalhar.
- Truz truz! Posso?
Ela levantou os olhos e viu a cara dele.
- Claro que sim, Tomás. Obrigada pelo trabalho que fizeste. Ficou excelente. - Sim, fizemos um óptimo trabalho. Estava à espera que me ligasses de volta, que aconteceu?
- Deixei o telemóvel em casa.
- Hm, e já pensaste na minha oferta irresistível?
- Já. - disse, sem expressão nenhuma.
Pedro ficou na dúvida, confuso, sem saber o que pensar. Ela esperou mais alguns segundos assim e em seguida esboçou um sorriso.
- A sério?! Fizeste uma óptima decisão! Não conseguias resistir, pois não? Eu sabia.
Ele abraçou-a com imensa força e ela retribuiu. Não havia dúvida que os dois gostavam muito um do outro e que viver juntos era um bom passo seguinte.
- Sempre soube que iamos viver juntos, desde aquele dia.
**
Eram nove e um quarto da noite. Anita estava a usar um vestido de cor branca até aos joelhos e os seus sapatos eram dourados. Desta vez optou por deixar o cabelo castanho solto. Estava sentada numa mesa no restaurante, à espera da sua amiga Mariana.
- Está à espera de alguém, menina? - perguntou um dos empregados.
- Sim sim.
Minutos mais tarde, um rapaz sentou-se à sua frente na mesa. Ela mostrou-se muito atrapalhada, sem saber o que dizer.
- Tem calma, tem calma. És a amiga da Mariana, não és? - perguntou.
- Uh, sim... Também és?
- Sou. Sabes eu começo a desconfiar que isto é um encontro daqueles... Um blind date, estás a ver? É que eu estava naquela mesa à espera do Martim, um amigo meu, e ele nunca mais apareceu. Depois olhei para ti e reparei que és amiga da namorada dele, a Mariana. Eu acho seriamente que os dois prepararam isto.
- Oh não acredito, isto é mesmo típico deles.
Os dois riram-se juntos pela primeira vez.
- Como é que tu te chamas? - perguntou o rapaz.
- Podes chamar-me de Sofia...
- Não é o teu nome? Não me vais dizer o teu nome?
- Olha... Sejamos sinceros, isto de blind dates não funciona comigo. Eu estou mesmo a ver que amanhã já tudo isto passou e, sinceramente, esta não é a minha maneira de conhecer novas pessoas. Desculpa.
- Não peças. Penso exactamente o mesmo. Podes tratar-me por Gonçalo.
- Ora bem então, estamos na mesma página. Vamos escolher o que vamos jantar?
Depois de algum momento de silêncio e após escolherem da ementa o que ambos queriam comer, «Gonçalo» puxou conversa.
- Então, Sofia, que idade tens?
- Vinte. E tu?
- Vinte e três. Termino este ano lectivo a faculdade.
- Estás a estudar o quê?
- Letras como tu. Eu já te vi lá na faculdade.
- A sério? Nunca reparei.
A conversa entre eles foi cada vez mais natural. Houve poucas pausas pois os dois procuravam sempre saber mais um sobre o outro. Estranhamente, Anita estava a gostar de o conhecer. Ficaram no restaurante até à meia e noite, já quase ninguém estava lá a jantar.
- Vamos sair daqui? - perguntou à Anita.
- Sim, sim. Antes que nos fechem aqui.
- Que me dizes de um chinês agora?
- Parece-me óptima ideia. Estes restaurantes finos não me tiram a fome.
- Também estou esfomeado.
Deixaram dinheiro em cima da mesa e sairam do restaurante. Anita estava à espera de ver um carro lá estacionado, uma vez que ele lhe ofereceu boleia. Em vez disso, ele estende-lhe um capacete.
- Estás a falar a sério? - perguntou, pegando nele.
Ele apenas acenou a cabeça e enfiou o seu capacete.
- Estavas à espera de um Ferrari era?
- Claro que estava. - disse, tentando ser convincente.
- Emprestei-o ao meu jardineiro e ele nunca mais me devolveu.
Riram-se. Depois de a ter ajudado a apertar o seu capacete, saltou para a mota e pôs a trabalhar. Já dentro do restaurante chinês, ambos pediram o mesmo menu. Sentaram-se numa mesa pequena encostada a um canto. Estavam ambos muito à vontade um com o outro apesar de apenas se terem conhecido hoje. Um empregado foi ter com eles e deu-lhes dois bolinhos da sorte, como oferta da casa. Os dois abriram e tiraram de lá os papeizinhos.
- O quê que diz o teu? - perguntou, curiosa.
- Diz tu primeiro.
- O meu diz «Tu és e sempre serás a rapariga mais bonita do mundo». - disse com uma cara muito séria.
- Agora a sério. - disse, rindo.
- Diz «Você deveria conhecer mais pessoas».
- Boa, essa é para mim. Estás a ver? Vá, queres que eu leia o meu?
- Claroo! Vá...
- Diz «Você vai viver junto com a pessoa que está ao seu lado».
- Agora a sério. - disse, dando uma gargalhada.
- Estou a falar a sério. Nós vamos viver juntos um dia. É o que aqui diz. Portanto, vamos.
- Vamos, pois claro.
- Não achas, então, que deveria saber o teu nome já que vamos viver juntos?
- Hmm... pronto, Anita. E tu?
- Tomás.
**
Anita deu-lhe um beijo, assim que se levantou da secretária, e perguntou-lhe:
- Tomás, levo as minhas coisas para o teu apartamento hoje à noite?
- Sim, mas desconfio que seja muita coisa. Metade já pára sempre lá em casa e já.
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