“Um bilhete de ida para o Porto, se faz favor.” Eu peço à senhora por detrás do balcão da estação de comboios de Coimbra. “Sim senhora, aqui o tem. Faça uma boa viagem.” Retribuiu-me. “Obrigada.” Viro-me para trás e observo as minhas amigas. “Estou pronta para ir, meninas. Vocês também deveriam ir já embora, para não perderem a camioneta.” Pausa. “Gostei muito destas duas semanas aqui.” E elas sorriem-me. “Também gostei imenso e obrigada às duas por terem vindo. Vemo-nos só em Lisboa, agora, não é?” Perguntou, sabendo já à partida qual seria a resposta.
Despedi-me das duas com um abraço colectivo e peguei na minha mala azul. Já fora da estação, olho através do vidro e aceno-lhes, enquanto me viro e continuo o meu caminho até encontrar a linha número quatro. Pouso a mala do chão e espero pelo comboio que ainda não chegou. A minha carteira começa a tremer e eu imediatamente procuro o telemóvel dentro dela. Deve ser ele, só pode. Ele sabe que hoje me vou embora daqui, deve quer despedir-se, já que não me disse nada desde a última vez que estivemos juntos. Olho para o ecrã e não é ele. Seca. Não me apetece atender o telemóvel à minha melhor amiga. Quando chegar lá, falo com ela. Depois de ela ter desistido de tentar falar comigo, eu vou até à caixa de entrada das mensagens procurar a última mensagem que ele me mandou. Foi há cinco dias atrás e dizia que já me telefonava. Mas não chegou a fazê-lo. Eu ainda cheguei a telefonar, mas como seria de esperar, ninguém atendeu do outro lado.
Dou por mim a voltar à realidade com o ruído do comboio a travar à minha frente. Abro a porta automática, carregando no botão, e sento-me na primeira cadeira livre que encontro. Coloco os dois fones nos meus ouvidos e ponho a música no nível máximo. Encosto a cabeça à janela e fico a olhar lá para fora, absorvida nos meus próprios pensamentos, que já nem escuto a música. Vejo as pessoas a entrar e a sair do comboio e da estação, pessoas a andar de um lado para o outro, com malas ou sem malas, todas elas cheias de pressa, como se a vida delas acabasse se não apanhassem o comboio a horas. Fico a pensar se a vida delas seria sempre assim, todos os dias atrás das coisas que tendem a fugir. Até dentro das carruagens existe uma atmosfera de velocidade, pessoas a passar de um lado para o outro, a baterem com as malas em tudo que é superfície, com falta de tolerância para as pessoas que se encontram atravessadas no seu caminho. Parece-me a mim que eu e o comboio somos os únicos parados, tudo o resto está em movimento, até o relógio que não pára nem um segundo.
Chegada à hora, começo a sentir a vibração do comboio, ansioso por partir. Sento-me mais confortavelmente na cadeira, sem nunca deixar de olhar para o lado de fora. Quando vejo o relógio a marcar a hora exacta, todos os passageiros estão sentados e surpreendentemente sem movimento. Lá fora, aconteceu o mesmo. As pessoas estão de pés juntos, com as suas malas ao seu lado. Estão à espera de outro comboio já que neste não conseguem entrar. Neste preciso momento, não detecto movimento em lado nenhum. Quase nem sinto a minha respiração, de tão calma que está. O comboio não se apressa para começar a viagem, pelo que eu olho novamente para o relógio da estação e vejo que apenas se passou um minuto. Em seguida, os meus olhos são desviados rapidamente para o movimento rápido que captaram por debaixo do relógio.
É uma pessoa a correr. Não. É ele a correr. Os seus pés não param no mesmo sítio e os seus olhos movimentam de uma maneira louca para dentro das carruagens, enquanto as suas mãos o impedem de embater nas outras pessoas ou de se desequilibrar com as malas deixadas ao acaso no chão. O meu coração apanha o ritmo dos seus olhos, sinto a adrenalina a correr pelas minhas veias, provocando a contracção do meu estômago e a aceleração da minha respiração. Rapidamente salto do meu lugar e com as minhas mãos, puxo-me para a frente como no mar, para tentar vencer a força da maré. Ele vê-me e corre na minha direcção e eu, dentro do comboio, corro também na direcção dele. Só que nenhum de nós pode entrar ou sair porque as portas estão trancadas. Neste momento, a única acção, o único movimento, a única velocidade é a dele e a minha, fora e dentro. Tudo o resto está parado. Paramos ao mesmo tempo numa das portas de vidro e ele colocou a mão dele, com a palma virada para mim. E eu imito-lhe o gesto, colocando-a também virada para ele.
O relógio continua a percorrer os segundos e, agora sim, o comboio começa a percorrer o caminho. Eu e ele sorrimos, enquanto nos vemos a afastar um do outro.