quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

TAKE twenty-two

O primeiro verão de Madalena e James com a filha Serena foi passado em Portugal, no Algarve. Juntaram-se a eles, os amigos de Madalena e a mãe dela. Passaram o mês inteiro de Agosto no aldeamento em Vilamoura, perto da praia da Falésia. Madalena mostrou a James a Marina para onde ia todas as noites quentes ter com os seus amigos, depois de longos dias de praia.

- When we were young, we came here every night and every night we talked how big our boat would be, just like all these boats here and what car we would have when we were older.
- Look at that car, gosh! Beautiful.
- I know… Every time I come to Algarve it’s like I’m turning back time. I can’t explain this feeling but I love it.
- I’m glad you do. Where’s our Serena, baby?
- She’s over there with the twins and Inês.

Os dois ficaram em silêncio, de mãos dadas a olhar para o mar e os barcos atracados. James ficou a olhar para a sua filha de seis meses e apercebeu-se de como o tempo passa a correr. A sua expressão ficou cada vez mais pesada, o que fez Madalena perguntar o que se passava.

- Nothing… It’s just… - E fez uma pausa. Olhou-a nos olhos. – It’s just that I realize I’m the luckiest guy on Earth for having you and our baby. And I also realize how fast time passes by and I’m afraid not having enough time for loving you two as I would like…
- Baby, what are you saying? Stop saying that… You, baby, - E apertou-lhe a mão – you have all the time in the world and you will never lose us… You will have all the time in the world for loving us and for us to love you.
- I know, sweetheart… It’s just that I feel time is going really fast and that scares me, you know?
- I feel that too, baby. All we can do is to live life and enjoy every part of it. Right?
James dá um beijo na face de Madalena e volta a olhar novamente Serena, que se encontra a vir na sua direcção no colo da Inês.
- Madalena – Começa Inês. – Já está a ficar tarde, não devíamos ir?
- Sim – respondeu, olhando para o relógio – Vamos embora, tenho que por essa bebé a dormir. Let’s go, baby? – Perguntou olhando na direcção de James.

Madalena com a sua filha ao colo, Inês de mão dada aos gémeos, um de cada lado, Bernardo e Miguel ao lado de James, começaram a andar em direcção da saída da Marina. Desde que Bernardo foi apresentado ao Americano que a relação dos dois tem evoluído, já se consideravam amigo um do outro e, combinavam muitas vezes saída a dois. Os dois iam entretidos a conversar sobre futebol, mais Bernardo que James, visto que este último nunca foi grande adepto. Num momento para outro, deixaram de ver Miguel à sua frente.

- Where’s your son?

Bernardo foi brutalmente interrompido pela preocupação de James. O Português ficou estático a olhar à sua volta. De repente, como num ápice, sentiu uma onda avassaladora de terror. As suas mulheres rapidamente chegaram perto dele, ficando preocupadas pela expressão de ambos.

- Que se passa, querido? – Perguntou Inês. «Não sei do nosso filho» foi tudo o que saiu da boca dele quase nem se mexendo. Inês sentiu um arrepio pela espinha e empalideceu e conseguiu gritar antes de perder a voz «Miiiiiiiiiguel!»

Rapidamente, James se misturou na multidão em direcção à saída. Deu e recebeu encontrões das pessoas que teimavam em não o deixar passar. James ouvia a sua pulsação a bater muito rápido e sentia as mãos suadas. Conseguiu, finalmente, chegar à rua. Madalena abraçou com uma força que não conhecia a sua filha e apertou o braço da sua melhor amiga. Bernardo, entretanto, tinha ido atrás de James. Inês começa a chorar e tudo o que Madalena consegue dizer é para se acalmar mas, apercebe-se rapidamente que é impossível ela acalmar-se nesta situação. James olha em redor com uma rapidez incrível e vê Miguel a preparar-se a atravessar a rua, lá ao longe. Começa a correr mesmo antes do rapaz pôr o pé no alcatrão. Ele empurra umas quantas pessoas e ao mesmo tempo acrescenta um «sorry» e continua a sua corrida até ao Miguel. Bernardo viu James a correr e olhou na direcção que ele ia e viu o seu filho a começar a atravessar a estrada cheia de carros que não têm tempo de travar em segurança. Ele grita pelo nome da sua mulher olhando para trás de si e começa a correr na direcção do seu filho. Inês ouve e começa a andar a passo apressado até ao stítio onde ouviu a chamarem-na. Madalena ia na sua frente, indicando-lhe o caminho, nunca largando o seu braço. James chegou-se perto de Miguel quando este já ia a meio da rua. Ia pegar nele mas rapidamente olhou para a sua direita e viu um carro a aproximar-se a alta velocidade na direcção deles e que não ia ter tempo para travar nem espaço para se desviar. Tudo que ocorre na mente de James é empurrar o Miguel para fora da trajectória do carro, porque sabe que não consegue sair pelo seu próprio pé dali. E, assim, o fez. Miguel caiu para perto do passeio, entre dois carros estacionados. O carro tentou travar e começou a chiar. As pessoas ali à volta deixaram de parte as suas conversas e olharam para o que ia acontecer. Madalena chegou-se perto da rua e segue o barulho do carro e vê James à frente dele. Rapidamente larga a sua melhor amiga e leva a sua mão à cabeça gritando «Nãããããoooo!!». O carro não consegue parar. Ouve-se para além do carro a chiar, o barulho do embate. Madalena fechou os olhos, já cheios de lágrimas, ao ouvir aquele barulho.
Aquele barulho era o seu marido, pai da sua filha, a ser atropelado.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Margarida Rebelo Pinto

«Quando se ama alguém, tem-se sempre tempo para essa pessoa. E se ela não vem ter connosco, nós esperamos. O verbo esperar torna-se tão imperativo como o verbo respirar. A vida transforma-se numa estação de comboios e o vento anuncia-nos a chegada antes do alcance do olhar. O amor na espera ensina-nos a ver o futuro, a desejá-lo, a organizar tudo para que ele seja possível. É mais fácil esperar do que desistir. É mais fácil desejar do que esquecer. É mais fácil sonhar do que perder. E para quem vive a sonhar, é muito mais fácil viver.»

sábado, 24 de janeiro de 2009

elogio ao amor puro, mais uma vez

«
Num momento, num olhar, o coração apanha-se para sempre. Ama-se alguém. Por muito longe, por muito difícil, por muito desesperadamente. O coração guarda o que se nos escapa das mãos. E durante o dia e durante a vida, quando não esta lá quem se ama, não é ela que nos acompanha - é o nosso amor, o amor que se lhe tem. Não é para perceber. É sinal de amor puro não se perceber, amar e não se ter, querer e não guardar a esperança, doer sem ficar magoado, viver sozinho, triste, mas mais acompanhado de quem vive feliz.
»

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Outro dia normal

Acordei com a minha colega de quarto a tropeçar na sua mala quase pronta. É quarta-feira mas ela já vai para casa, um fim de semana prolongado. Disse, entretanto, umas asneiras e agarrou-se ao seu pé. Eu levantei-me da cama e abri a persiana. Quando a vi espalhada no chão, rio-me descaradamente e o meu riso puxa pelo riso dela. Estendi-lhe a mão e ela levantou-se. Peguei, em seguida, na minha toalha de banho e enfiei-me debaixo da água quente do chuveiro. Quando sai, os meus músculos contraíram devido à temperatura gélida de hoje. Corri para o meu quarto e vesti-me em menos de dois segundos. Ainda a passar a camisola de gola alta pela cabeça, saio do meu quarto e vou até à cozinha antes que o leite quente acabe. Chego lá e nada de leite quente, para variar.

- Tinhas que ter vindo mais cedo – disse, sorrindo, outra rapariga que divide casa comigo.
- Para a próxima já sei – respondo, retribuindo-lhe o sorriso.
Preparo a minha torrada e o meu leite frio com chocolate e sento-me, finalmente, desfrutando do meu pequeno-almoço. Ela irrompe o silêncio.
- Aii, hoje tenho um dia mesmo atarefado lá na faculdade, vou ter orais a quase todas as disciplinas… Estou a ficar nervosa, sabes?
- Não estejas, não precisas. Tu estudaste, não foi? Então vai correr bem, porque razão iria correr mal?
- Tens razão – disse, após hesitação – Então e tu?
- Hoje vai ser mais um dia normal na vida de Sofia, como sempre.

A conversa acabou por ali e eu aproveitei aquele momento de silêncio para lavar a minha louça e ir buscar o meu casaco, carteira e livros e ir para a faculdade. Apanho o metro na estação ao lado de minha casa e saio nos Restauradores. Atravesso a rua e vou em direcção ao elevador que sobe aquela subida monumental até à minha faculdade. Quase que não chegava a tempo, porque mal coloquei um pé, arrancou. Validei o meu Lisboa Viva e sentei-me no único lugar vago que havia. Na minha frente, estava um rapaz que não me era nada estranho. Donde é que o conhecia? Não conseguia parar de o olhar e quando ele olhava para mim, eu desviava o meu olhar para o ipod. Saimos do elevador, ele à minha frente e aí apercebi-me de onde o conhecia, era lá da faculdade. Eu comecei a andar e coloquei os dois phones nos meus ouvidos.

Apercebi-me que ele começou a andar ao mesmo passo que eu, na tentativa de falar comigo. Tirei um dos phones do meu ouvido e continuei a andar ao mesmo passo que ia. Via-o a olhar para mim, sem falar. Então olhei-o e comecei a conversa. Perguntei-lhe se também iria ter teste naquela tarde. Ele olha-me nos olhos e com um sorriso rasgado atrás da barba de dois dias diz-me que já fez essa cadeira há três anos atrás. As minhas faces coraram de vergonha mas ele pareceu não se importar. Caminhamos lado a lado até à faculdade. Ao entrar, ele segura-me a mão, fazendo-me rodar sobre os calcanhares. Após hesitação, pergunta-me se quero tomar café com ele neste preciso momento. Eu digo, sem hesitar, que sim. Fomos para o café ao lado e sentamo-nos frente a frente.
Falamos e falamos sobre o tudo e sobre o nada. Fiquei a conhecê-lo tão bem e há medida que ele me contava mais sobre ele, mais fascinada ficava e mais apaixonada me sentia.

Hoje, foi tudo menos um dia normal na vida de Sofia como eu pensei hoje de manhã. Hoje foi o dia em que me apaixonei verdadeiramente.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

Passagem de Ano

Andei o dia todo de ontem a correr pelos centros comerciais à procura do vestido perfeito para hoje. Depois de ver praticamente todas as lojas existentes em dois centros comerciais diferentes, decidi-me. É mesmo este o vestido que eu quero. É branco, com uma longa fita preta que me cobre do pescoço até aos joelhos, onde o vestido acaba. De um lado e de outro desta fita, é cor branca.
Já perto da hora de jantar, fui-me arranjar. Lavei o meu cabelo e fiz dele caracóis grandes e leves. Vesti umas meias calças pretas e, por cima, enfiei o vestido. Calcei os meus sapatos por estrear e acrescentei umas tantas pulseiras e o anel. De frente para o espelho do meu quarto de banho, começo a maquilhar-me. Base da cor da minha pele, pó nas bochechas até às têmporas, rímel nas pestanas de cima, risco preto por cima do olho e a finalizar, o batom de cor rosa da minha irmã. A sair de casa, vesti o casaco e alcancei a minha carteira cinzenta.
Liguei o carro e arranquei. Percorri quase três quilómetros para apanhar quatro amigas minhas e seguimos viagem. Após quinze minutos a conduzir, finalmente estacionei o carro à frente da casa onde a festa se vai realizar.
Saimos as cinco do carro a comentar os nossos vestidos e a rir de alegria. Este ano seria para festejar esta passagem de ano e a do ano passado, já que não passamos todas juntas. Hoje, eu admito, eu estou feliz.
Tocamos à campainha e abriram-nos imediatamente a porta. Cumprimentamos e começamos a circular pelo enorme salão, tão bem decorado com as cores de preto e dourado. Conhecia praticamente toda a gente daquela sala, excepto, uma. Uma rapariga mais baixa que eu uns bons dez centímetros, magra, que usava uma vestido azul água até um pouco acima dos joelhos e bastante decotado tanto à frente como atrás. Usava o cabelo como se não tivesse tocado nele desde que acordou e a maquilhagem, muito, muito suave. Estava a vê-la agora de lado, a conversar com dois grandes amigos meus. Quem será?
Afastei-me das minhas amigas e fui ter com o anfitrião da festa, que neste momento estava a servir bebidas no bar, junto à mesa de bilhar. Aproximo-me sem ele dar conta.

- Quem é ela? - pergunto sem nunca deixar de olhar.
Ele ri-se por se ter assustado e de ter molhado o balcão com vodka. Ao limpá-lo, pergunta-me. - Quem? - Ele segue o meu olhar e sabe a resposta. - Aaah, ela. - Fez uma pausa e enche o copo até ao fim, entregando-me nas mãos. - É a namorada dele. - E faz-me um sinal com os olhos, para o outro lado da sala, quando pronuncia dele.
Eu viro o olhar e percebo quem é ele. Deixo rapidamente a postura de curiosa e adopto uma surpreendida. - Ele está cá? - pergunto quase engasgando-me. Bebo metade do copo e sinto as minhas mãos a tremer. - E ninguém me diz que ele está cá? - Olho outra vez na direcção dele e ele olha-me de volta. - Bolas! - E fico estática a olhar para o anfitrião, com cara de envergonhada. - Ele reparou, não reparou? Reparou?
- Com licença. – e afasta-se de mim, segurando incrivelmente cinco copos cheios nas suas duas mãos.
Eu viro-me para trás e ele está ali, ao meu lado.
- Olá, estás boa? – com o seu sorriso envergonhado e, ao mesmo tempo, provocador.
- Hum. – bebo um trago da vodka. – Sim, e tu?
- Também. Estou admirado por te ver aqui, ninguém me disse que ias estar cá.
- O mesmo se passou comigo. – admito, olhando em volta, cruzando o olhar com a namorada dele. – E já vi que vieste acompanhado.
Ele olha para ela e depois baixa o olhar até olhar o chão. Em seguida olha para mim. – Pois vim. – e fez um sorriso atravessado. – Vieste com alguém?
- Sim.
- Quem? – olhando para a sala à procura de rapazes que não conhecia.
- As minhas quatro amigas, que estão ali. – disse, apontando-lhes.
- Aah, está bem. – E fez silêncio.
Mas que silêncio tão constrangedor. Normalmente, os nossos silêncios não eram assim. Conseguia ficar uma tarde inteira sem lhe dizer nada e sem ele me dizer nada, ficando os dois abraçados, apenas. Não que isso normalmente acontecesse. O que era habitual era estarmos constantemente a falar um com o outro, fazendo perguntas um ao outro, tentando descobrir um pouco mais sobre o outro. Normalmente não nos abraçavamos assim. Aliás, não me lembro de ficar abraçada a ele uma tarde inteira. Mas sei, que se tal acontecesse, eu conseguia. E não me sentiria constrangida com o silêncio dele. Ele interrompeu o meu pensamento.
- Hm, vou ter que ir ter com ela.
Eu olhei-lhe nos olhos e em seguida olhei para ela, a fazer-lhe sinais para ir ter consigo.
- Claro, vai, ela está a chamar-te.
- Gostei muito de te ver, sabes? – sorrindo daquela maneira que me deixa sem palavras.
Mas ele tem noção do que me faz quando me sorri assim?
- Eu também.
E saiu do meu lado. Atravessou meia sala e abraçou-a, dando-lhe um beijo na testa. Eu não vi esta demonstração pois, fui incapaz de olhar os dois. Uma das minhas amigas é que me contou mais tarde, quando fomos todas para o pé da pisicina.
- De certeza que estás bem? Eu não devia ter dito aquilo…
- Querida, não te preocupes. Fizeste bem em me dizer que se nota que eles gostam muito um do outro. Eu estou bem, a sério, meninas.

Eu não estou bem. Ainda há pouco admiti a mim própria que hoje estou feliz mas essa felicidade desapareceu no momento em que soube que ele estava naquela festa… acompanhado.
Pedi licença e fui para dentro da casa. Atravessei a cozinha e aproveitei para pousar o meu copo vazio na banca. Continuei para dentro da casa e parei apenas à porta do quarto de banho. Estava ocupada. Encostei-me à parede oposta à porta, à espera. Quando vejo a porta a abrir-se, eu desencosto-me da porta e dirijo-me até ela. Ele sai por detrás da porta. Eu detenho-me, deixando-o passar por mim.
Porquê que o vou deixar ir embora, uma vez mais? Estou sozinha aqui com ele e vou deixar que ele se vá embora ter com ela neste preciso momento quando só estamos nós os dois aqui? Sem ninguém por perto para nos ouvir a conversar. Vou deixar que ele passe por mim sem me dizer nada? E eu a ele? Mas porquê que eu tenho que fazer isso?
Enquanto passa por mim, eu seguro-lhe a mão, apertando-o com a minha. Ele pára, sem me olhar.
Ele vai largar a mão, ele vai largar a mão…
Não largou, em vez disso, retribuiu o meu aperto de mão e olhou para trás, até os seus olhos encontrarem os meus. Parecia-me indeciso. Então, eu decidi por ele. Puxei-o até a mim até o abraçar. E ele, largando a minha mão, abraçou-me também. E ficamos abraçados.
Ao afastar-se de mim, continuou ainda muito perto. Tão perto que o ouvia a respirar e sentia a respiração dele no meu pescoço. E beijou-me aí.
Fomos até ao salão mas paramos antes de passarmos a porta de vidro. Espreitamos por ela e vimos toda a gente de costas voltadas para nós. De repente, contagem decrescente.
Vinte… Dezanove…

- Não era melhor entrares? – pergunto.
- Era. – disse, olhando pela porta de vidro, sem nunca largar a minha mão. -Era melhor entrar.
Dezasseis… Quinze… Catorze…
- Hm, estás à espera do quê? – esperando que ele não notasse o meu tom de voz triste.
- Não consigo. – olhando-me em seguida.
- Não consegues o quê?
- Deixar-te. – admitiu depois de um momento de hesitação.
Eu estava a olhar para ele, ainda espantada por tal afirmação. Ele, por fim, puxa-me para si, aproximando o seu rosto do meu e hesita. Hesita de maneira a prolongar o momento.
- Dez… Nove… - disse, enquanto se aproximava cada vez mais de mim.
- Oito… Sete…
- Amo-te.
- Eu também te amo.
- Três. – e já sentia a sua respiração.
- Dois. – consigo ainda dizer, fechando os olhos.
Um.

domingo, 26 de outubro de 2008

um dia...

apanho o metro na estação ao lado de minha casa. lá dentro, a segurar a minha carteira e os meus livros, recupero o fôlego. na estação seguinte, eu saio. subo escadas e mais escadas até sentir o frio do vento na minha cara. recuso o jornal do metro e atravesso a rua. caminho mais uns passos até encontrar a minha estação de autocarro. nos próximos vinte minutos, olhava para o meu relógio, mandava uma e outra mensagem, passava o meu peso de um pé para o outro, olhava para o céu de tédio, entre outras coisas. passado algum tempo, sinto alguém a andar em minha direcção e a parar ao meu lado. olho para ele e ele olha-me de volta. rapidamente olho para o chão e rio-me. olhei mais uma vez para o relógio e logo de seguida para ele. ele, mais uma vez, olhou-me de volta. ficamos assim uns dois segundos, nem isso. voltamos a olhar para a frente. cinco minutos depois, dois autocarros chegaram. o meu era o que estava atrás. o dele era o da frente. ele passa pela minha frente e caminha até à entrada do autocarro. eu fiquei a olhar para ele, e ele para mim, até eu entrar no meu autocarro.
uma semana depois, ainda não o voltei a ver.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Faculdade

Deito-me cedo na minha nova cama, na minha nova casa, ao lado da minha nova colega de quarto. Acordo com o meu despertador à hora do costume, bem cedo. Levanto-me e vou para o quarto de banho arranjar-me e vestir-me. Vou até à cozinha e tomo o meu sempre igual pequeno almoço. Pego nos livros e carteira e saio de casa. Desco pelo elevador os cinco pisos do prédio e apanho o metro à saída. Na paragem a seguir, saio e subo as sempre intermináveis escadas, atravesso a rua e ando até à paragem de autocarro. Fico sempre à espera dele uns bons vinte minutos e quando finalmente o vejo e ele pára, eu entro. Sento-me nas quatro paragens que se seguem e na quinta, pressiono o botão do stop e saio. Caminho até ao jardim e finalmente consigo ver a faculdade. Faço esse caminho até lá dentro sem tirar os olhos da minha faculdade. Subo as escadinhas e aí sim, sou feliz quando a piso!

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

say it isn't so

Que sensação tão estranha que tive agora. Parecia que estava noutro lugar mas quando dou por mim, estou parada no semáforo. A rua está cheia de carros e pessoas com os seus guarda-chuvas. Sinto-me perdida, como nunca me senti. Olho para o relógio para ver as horas e o dia de hoje. São oito e vinte e duas da manhã de sexta-feira dia dez de outubro de dois mil e oito.
Para onde é que eu estou a ir?, pergunto-me a mim mesma. Não sei. Enquanto aguardo pelo sinal verde, chego até à minha carteira e tiro de lá a minha agenda. Reunião às nove e um quarto lá no escritório. Ah, lembro-me! E aí, voltei em mim. Tenho uma reunião e se estes semáforos não se despacham, eu vou chegar atrasada! Chego ao meu gabiente mesmo em cima da hora e só tenho tempo de atirar a minha carteira para cima da secretária e pousar o casaco na cadeira. Pego num bloco de notas e na minha pasta e vou, a passo apressado, até à sala onde costumo ter as reuniões com os meus clientes. Olho discretamente muitas vezes para o relógio porque o Pedro já devia ter cá chegado. Não é nada dele chegar atrasado aos seus compromissos.
Será que teve um acidente? Adormeceu? Que lhe aconteceu? e olho novamente para o relógio.
Chega a uma altura e eu prossigo com a conversa sozinha, sem pensar outra vez no Pedro e onde se meteu ele.
No final, despeço-me dos meus dois clientes sorridentes e vou até ao meu gabiente novamente. Sento-me na cadeira e, dois segundos de descanso depois, pergunto à minha secretária, pelo telefone, pelo Pedro.
- Quem, Dra?
Levanto-me da minha confortável cadeira e vou ter até ela. Explico-lhe quem é e ela diz-me que o Dr Pedro se despediu há quase dois meses.
- Não se lembra? - Pois não me lembro, ainda ontem tive com ele ali no meu gabiente, como é que ele já não põe lá os pés há dois meses? Ainda ontem lá em casa falamos sobre o trabalho. Com cara de incrédula, despeço-me da minha secretária e telefono para casa, para falar com ele. «Telefonou para casa de Pedro Gameiro, por favor deixe mensagem após o sinal». O quê que aconteceu ao «Olá, eu sou o Pedro e esta é a mulher da minha vida... Então, Carolina, diz o teu nome... Vá, deixa de ser envergonhada!»? Estaciono o carro à porta de casa e, depois de encontrar as chaves de casa, vou até à porta. Não entram. Tento uma e outra vez e não entram mesmo. Ainda hoje de manhã tranquei a porta, como é que já não dá?
Vou até ao carro e sento-me lá. Ligo o telemóvel e ligo-lhe para o dele. Toca e toca e toca e nada. Insisto mais uma e outra vez para saber porquê que ele mudou a fechadura da casa sem falar comigo primeiro. De telemóvel ao ouvido olho para o outro lado da janela e vejo-o a ele a dirigir-se para casa. Ao sair do carro, ouço alguém a chamar por ele, que o faz desviar a atenção dele em direcção a ela. Quando se aproxima dele, dá-lhe um beijo e entram em casa de mão dadas. Nesse momento, vejo a minha vida a andar para trás. Como é que o Pedro foi capaz de me fazer isto? O quê que aconteceu? Meu deus!

Acordo sobressaltada na minha cama. Que sensação estranha. Parecia mesmo real e afinal não passou de um sonho. O Gonçalo está na cama ao meu lado. Faço barulho a levantar-me da cama e acordo-o.
- Já vais embora, Rita? - Digo-lhe que sim e dou-lhe um beijo de bons dias. Tomo o pequeno-almoço e vou para o escritório. Apanho quase todos os semáforos vermelhos e parada num deles, recordo-me do sonho. Volto à realidade com o meu telemóvel a tocar. Atendo-o.

- Querida, demoras muito? Estamos todos à tua espera! - O quê? Ainda há pouco me despedi dele em casa.
- Gonçalo? - E ouço risos.
- Há algum Gonçalo que te chama querida? Sou eu, Sara. O Dinis.
- Desculpe, deve ser engano. - E desligo.

Chego ao escritório dez minutos depois do telefonema estranho. Cumprimento toda a gente e sento-me na minha cadeira, no meu escritório. Truz-Truz.
- Entre.
- Sara, querida, então porquê que só chegaste a esta hora? - pergunta-me alguém que nunca vi na minha vida.
Sara, outra vez?
- Tu és o Dinis do telefonema? - pergunto-lhe.
- Sim, querida. - E ri-se. - Achei imensa piada ao telefonema mas agora estás a deixar-me preocupado. Passa-se alguma coisa?
- Porquê que me chamas querida?
- Hm, será por seres minha namorada há sete anos, queridinha? - e tenta dar-me um beijo mas, eu afasto-me. - Passa-se mesmo qualquer coisa. Que aconteceu depois de eu te deixar em casa hoje de manhã?
- Acordei com o Gonçalo na minha cama e o meu nome é Rita.
A expressão da cara do tal Dinis mudou. Tornou-se pesada e preocupada. - Não tomaste os comprimidos hoje de manhã, pois não?
- Agora sou maluca? Vais-me dizer que não há Gonçalo nenhum e que eu não sou Rita, é?
- Sara, querida, não és maluca mas precisas mesmo de os tomar por causa da tua condição. É exactamente para evitar estas situações que os tomas.
Ambos são interrompidos por uma senhora baixinha e muito bem educada. - Dra Sara, precisava que me assinasse isto.
- Agora não, Rosário, deixe isso para depois, sim? - ele responde.
- Com certeza, Dr Dinis.
Sento-me na cadeira sem expressão.
- Sara? Mas eu não sou Sara, eu não me chamo Sara. Eu não me chamo Sara. Ninguém percebe isso? Eu sou a Rita. Chamo-me Rita. O meu nome é Rita. E o Gonçalo existe. Eu não te conheço. Eu não acredito em ti. Eu não sou a tua querida, eu nunca te vi na minha vida! Eu sou a Rita. Percebe isso: Rita!
Abraço-me e sinto-me a ir para a frente e para trás há medida que grito o meu nome.

Acordo e fico feliz por ter sido apenas um sono. Não estou a ficar maluca, que sensação. Parecia tão real e, afinal, não passava de um sonho, de um pesadelo! Olho para o lado e vejo o Diogo a dormir na nossa cama.